O Vizinho

9 06 2008

Meu negócio descansa inteiramente sobre os meus ombros. Duas senhoritas com suas máquinas de escrever e seus livros comerciais no primeiro quarto, e uma escrivaninha, caixa, mesa de informações, cadeiras de braços e telefone no meu, constituem todo meu aparalhamento de trabalho. É muito fácil controlar isso com uma vista de olhos, e dirigi-lo. Sou muito jovem e os negócios se acumulam aos meus pés. Não me queixo, não me queixo.

Desde o Ano Novo, um jovem alugou sem hesitar a sala contígua, pequena e desocupada, que por tanto tempo titubeei, estupidamente, em tomar para mim. Trata-se de um quarto com antecâmara e, além do mais, uma cozinha. Tivesse podido utilizar o quarto e a antecâmara – minhas duas empregadas sentiram-se mais uma vez sobrecarregadas em suas tarefas -, mas, para que me teria servido a cozinha? Esta pequena hesitação foi a causa de permitir que me tirassem a sala. Nela está instalado, pois, esse jovem. Chama-se Harras. Com exatidão não sei o que faz ali. Sobre a porta lê-se: “Harras, escritório”. Pedi informações, comunicaram-me que se trataria de um negócio idêntico ao meu. Na realidade, não vem ao caso dificultar-lhe a concessão de crédito, pois se trata de um homem jovem e de aspirações, cujas atividades tenham talvez futuro, mas não se poderia, contudo, aconselhar que se lhe outorgue crédito, pois atualmente, segundo todas as presunções, careceria de fundos. Quer dizer, a informação que se dá habitualmente quando não se sabe de nada.

Às vezes encontro Harras na escada, deve ter sempre uma pressa extraordinária, pois se escapule diante de mim. Nem mesmo pude vê-lo bem ainda, e já tem pronta na mão a chave do escritório. Num instante abre a porta, e antes que o observe bem já deslizou para dentro como a cauda de uma rata e aí tenho outra vez à minha frente o cartaz “Harras, escritório”, que li muitas mais vezes do que o merece.

A miserável finura das paredes, que denunciam o homem eternamente ativo, ocultam porém o desonesto. O telefone está apenso à parede que me separa do quarto de meu vizinho.

Não obstante, destaco-o apenas como constatação particularmente irônica. Mesmo quando pendesse da parede oposta, ouvir-se-ia tudo da sala vizinha. Evitei o meu costume de pronunciar ao telefone o nome de meus clientes. Mas não é necessária muita astúcia para adivinhar os nomes através de característicos mas inevitáveis torneios da conversação. Às vezes, aguilhoado pela inquietação, sapateio nas pontas dos pés em volta do aparelho, com o receptor no ouvido, mas não posso impedir que se revelem segredos.

Naturalmente, as resoluções de caráter comercial se tornam assim inseguras e minhas voz, trêmula. Que faz Harras enquanto telefono? Se quisesse exagerar muito – o que é preciso fazer com freqüência para ver claro -, poderia dizer: Harras não precisa telefone, usa o meu, colocou o sofá contra a parede e escuta; eu, em troca, quando o telefone toca, devo ir atender, tomar nota dos desejos do cliente, adotar resoluções graves, sustentar conversações de grandes proporções, porém, antes de tudo, proporcionar a Harras informações involuntárias, através da parede.

Ou antes, nem mesmo espera o fim da conversação, porém que se ergue depois da passagem que lhe informa suficientemente sobre o caso, atira-se, segundo o seu costume, através da cidade e, antes de eu ter pendurado o receptor, está talvez trabalhando já contra mim.

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos





A Infelicidade do Celibatário

9 06 2008

Parece tão ruim permanecer solteiro e já velho pedir acolhida – mantendo com dificuldade a própria dignidade – quando se quer passar uma noite em companhia das pessoas, estar doente e do canto da sua cama fitar semanas a fio o quarto vazio, despedir-se sempre na porta do prédio, nunca abrir caminho para o alto da escada ao lado da esposa, ter no quarto apenas portas laterais que dão para apartamentos de estranhos, trazer numa das mãos o jantar para casa, ter de admirar os filhos alheios e não poder continuar repetindo “não tenho nenhum”, tomar por modelo, no aspecto físico e no comportamento, um ou dois celibatários das lembranças de juventude.

Assim vai ser, só que na realidade, hoje como mais tarde, ali estará o mesmo de sempre, com um corpo e uma cabeça real – ou seja, com uma testa também – para bater nela com a mão.

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos





O Timoneiro

9 06 2008

- Não sou acaso timoneiro? – exclamei.

- Tu? – perguntou um homem alto e escuro, e passou as mãos pelos olhos, como se dissipasse um sonho.

Eu estivera ao timão em noites escuras, com a débil luz do farol sobre a minha cabeça, e agora tinha vindo aquele homem e queria pôr-me de lado. E como eu não cedesse, pôs o pé sobre o meu peito e empurrou-me lentamente contra o solo, enquanto eu continuava sempre aferrado à roda do timão e a arrancava ao cair. Então o homem apoderou-se dela, pô-la em seu lugar e me deu um empurrão, afastando-me. Refiz-me depressa, contudo, fui até a escotilha que levava ao alojamento da tripulação, e gritei:

- Tripulantes! Camaradas! Venham depressa! Um estranho tirou-me do timão!

Chegaram lentamente, subindo pela escadinha, eram formas poderosas, oscilantes, cansadas.

- Sou eu o timoneiro? – perguntei.

Assentiram, porém apenas tinham olhares para o estranho, ao qual rodeavam em semicírculo, e quando com voz de mando ele disse: “Não me aborreçam”, reuniram-se, olharam-me assentindo com a cabeça e desceram outra vez a escadinha.

Que povo é este? Pensa também, ou apenas se arrasta sem sentido sobre a terra?

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos





O Heleno

9 06 2008

Fora admissível que Alexandre, o Grande – apesar das façanhas bélicas da sua mocidade, apesar do excelente exército que ele tinha preparado, apesar da capacidade que sentia em si para mudar a face do mundo – ficasse parado à margem do Helesponto, sem cruzá-lo jamais, e não por medo ou por indecisão ou por inércia: apenas pela ação da gravidade.

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos





O Novo Advogado

9 06 2008

Temos um novo advogado, o Dr. Bucéfalo. Pouco há no seu aspecto que nos faça recordar que foi em tempos o cavalo guerreiro de Alexandre da Macedônia. É claro que, quando se conhece a sua história, se nota qualquer coisa. Mas até um simples contínuo que noutro dia vi na escadaria principal do tribunal, um homem com os conhecimentos profissionais de um vulgar apostador medíocre nas corridas de cavalos, observava com admiração o advogado a trepar os degraus de mármore com uma determinação que os fazia tilintar sob os pés.

De um modo geral, a Ordem aprova a admissão de Bucéfalo. Com espantosa perspicácia, as pessoas dizem, de si para si, que, sendo a sociedade moderna aquilo que é, Bucéfalo está numa posição difícil e, portanto, considerando ainda a sua importância na história mundial, é, pelo menos, credor de uma recepção amistosa. É inegável que hoje em dia não existe nenhum Alexandre Magno. Há muitos homens que sabem matar pessoas; não falta quem tenha a perícia necessária para se debruçar sobre a mesa de um banquete e trespassar um amigo com uma lança; finalmente, para muitos, a Macedônia é um campo demasiado restrito, de modo que amaldiçoam Filipe, seu pai — mas ninguém, mesmo ninguém, consegue reconstituir um itinerário até à Índia. Mesmo no seu tempo, as portas da Índia eram inatingíveis; no entanto, a espada do rei apontava-lhes o caminho. Hoje em dia as portas recuaram para locais mais remotos e elevados. Ninguém aponta o caminho. Há muitos que andam de espada, mas apenas para a brandirem, e os olhos que tentarem segui-la ficam confundidos.

Assim, talvez seja melhor fazer o que Bucéfalo fez e mergulhar nos livros de direito. À luz suave do candeeiro, com os flancos livres do incômodo das coxas de qualquer cavaleiro, liberto e longe do clamor das batalhas, lê e vira as páginas dos nossos alfarrábios.

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos