A Lagarta

17 05 2008

Imóvel sobre uma folha, a lagarta olhou em torno e viu todos os insetos em contínua movimentação. Alguns cantando, outros saltando, outros ainda correndo e voando. Pobre criatura, era a única que não tinha voz e que não sabia nem correr nem voar.

Com grande esforçou começou a mover-se, mas tão lentamente que quando passou de um folha para outra sentiu-se como se tivesse dado a volta ao mundo.

No entanto não tinha inveja de ninguém. Sabia que era uma lagarta e que as lagartas precisam aprender a tecer finos fios, com grande habilidade, até construírem uma casinha para si mesmas.

E então pôs-se a trabalhar.

Dentro em breve a lagarta estava envolvida num macio casulo de seda, separada de todo o resto do mundo.
- E agora? – pensou ela.

- Agora espere – respondeu uma voz – tenha um pouco de paciência e você verá.

Quando chegou o momento a lagarta acordou, e não era mais uma lagarta. Saiu do casulo com duas lindas asas brilhantes e coloridas, e imediatamente vôou bem alto no céu.

Leonardo da Vinci





A Clematite

17 05 2008

Plantada à sombra de uma sebe, a clematite prendia seus verdes braços em torno do tronco e dos galhos de uma árvore.

Ao chegar ao topo, olhou em volta e viu outra sebe cercando o lado oposto do caminho.

- Oh, como eu gostaria de ir até lá! pensou a clematite – aquela sebe é maior e mais bonita do que esta aqui.

E pouco a pouco, estendendo os braços, aproximou-se cada vez mais da sebe oposta. Finalmente alcançou-a, atingiu um dos galhos e pôs-se alegremente a prender-se em torno dele.

Porém pouco depois alguns viajantes que vinham passando pelo caminho viram-se diante daquele galho de clematite impedindo a passagem. Pegaram o galho, arrancaram-no da cerca e atiraram-no dentro da vala. A avidez da clematite impediu que ela percebesse o perigo.

Leonardo da Vinci





A Castanheira II

17 05 2008

Em um jardim cercado por um alto muro, diversas árvores frutíferas moravam juntas. Durante a primavera todas ficavam cobertas de flores e no verão ficavam carregadas de frutos. Havia também uma castanheira.

- Porque hei de ficar escondida neste jardim? – pensou, certo dia, a castanheira – vou espichar meus galhos até à estrada para que todos possam ver como meus frutos são bons.

E assim, pouco a pouco, foi espichando seus mais lindos galhos por cima do muro para que todos pudessem vê-los.

Porém quando os ramos ficaram cobertos de castanhas, os passantes começaram a apanhá-las, e quanto não conseguiam alcançar os galhos, puxavam-nos para baixo com varetas, e, se não tivessem varetas, atiravam pedras.

Em pouco tempo a castanheira, maltratada e apedrejada, perdeu tanto os frutos quanto a folhagem, e seus pobres galhos quebrados ficaram pendurados para fora do muro.

Leonardo da Vinci





A Castanheira I

17 05 2008

Um dia uma velha castanheira viu um homem subindo numa figueira.

O homem puxava os galhos em sua direção e arrancava os figos maduros, comendo-os um por um, mordendo-os com seus fortes dentes.

Os galhos da castanheira murmuraram:

- Oh, figueira, você deve muito menos à Mãe Natureza do que eu! Está vendo o que ela fez por mim? Como preparou e protegeu bem meus filhos queridos! Vestiu-os primeiro com um vestido bem fino sobre o qual colocou um capa de pele dura, mas forro macio. E não satisfeita por ter me feito esta gentileza, construiu para cada um deles uma casinha bem resistente, e mobiliou-a com espinhos grossos e duros para protegê-los contra as mãos dos homens.

Quando a figueira e os figos ouviram isso, puseram-se a rir, e depois de rir um bom momento, a figueira respondeu:

- Mas será que você realmente conhece os homens? Nada disso adianta, pois eles farão tudo para tirar de você todos os seus frutos. Armados de varas, de paus e de pedras, baterão nos seus galhos para que todos os frutos caiam no chão. E uma vez caídos, vão pisar em cima deles ou esmagá-los com pedras para fazê-los sair de dentro de suas casinhas, tão bem protegidas pelos espinhos. E seus filhos ficarão amassados, quebrados e mutilados. Porém o meu fruto é colhido com delicadeza e só sou tocada por mãos.

Leonardo da Vinci





A Árvore e a Vara

17 05 2008

Uma árvore que crescia lindamente, erguendo em direção ao céu sua copa de tenras folhas, reclamou da presença de uma vara de madeira velha e seca que estava ao seu lado.

- Vara, você está perto demais de mim. Não pode chegar mais para lá?

A vara fingiu nada ouvir e não deu resposta.

Em seguida a árvore virou-se para a cerca de espinhos que a circundava.

- Cerca, você não pode ir para outro lugar? Você me irrita.

A cerca fingiu nada ouvir e não deu resposta.

- Linda árvore – disse um lagarto, levantando sua sábia cabecinha para olhar para a árvore – você não vê que a vara está mantendo você reta? Não percebe que a cerca está protegendo você contra as más companhias?

Leonardo da Vinci