Segregacionita

1 10 2008

- Ele está pronto? – disse o cirurgião levantando o olhar inexpressivo.

- Pronto é um termo relativo – disse o engemédico. – Estamos prontos. Ele está inquieto.

- Eles sempre estão… Bem, é uma operação séria.

- Séria ou não ele deve estar agradecido. Ele foi escolhido dentre um número enorme e, francamente, não penso que…

- Não diga nada – disse o cirurgião. – Não nos cabe tomar a decisão.

- Aceitamos, mas temos que concordar?

- Sim – disse o cirurgião, ríspido. – Concordamos, completamente e de todo o coração. A operação é demasiadamente intrincada para ser encarada com restrições intelectuais. Este homem provou o seu valor de muitas maneiras e o seu perfil é adequado para o Conselho da Moralidade.

- Está bem – disse o engemédico, pouco convencido.

- Vê-lo-ei aqui mesmo, assim penso – disse o cirurgião. – Esta sala é bastante pequena e íntima para ser confortável.

- Não ajudará. Ele está nervoso e mudou de idéia.

- Realmente?

- Sim. Ele prefere metal. Eles sempre preferem.

O rosto do cirurgião não apresentou mudança de expressão. Contemplou as próprias mãos.

- Algumas vezes podemos dissuadi-los.

- Por que se preocupar? – disse o engemédico, indiferente.

- Se quer que seja metal, que seja metal.

- Você não se importa?

- Por que deveria? – e o engemédico fez a pergunta quase que brutalmente. – De qualquer modo, trata-se de um problema da engenharia médica e eu sou um engenheiro médico. Posso tratar do assunto de qualquer forma. Por que deveria ir além disso?

- Para mim, é uma questão de adequação – disse o cirurgião, imperturbável.

- Adequação! Não pode usar isso como argumento. Que importa ao paciente a adequação das coisas?

- A mim, importa.

- O seu cuidado é o de uma minoria. A maioria é contra você. Não tem chance.

- Tenho que tentar – e o cirurgião reduziu o engemédico ao silêncio, com um rápido aceno de mão que revelava não impaciência, mas, sim, pressa. Já havia informado a enfermeira e já recebera o sinal de que ela se aproximava. Pressionou um botão e uma porta dupla abriu-se silenciosamente. O paciente entrou na sala na sua cadeira motorizada, com a enfermeira caminhando apressadamente a seu lado.

- Pode ir, enfermeira – disse o cirurgião -, mas espere lá fora. Poderei chamá-la. – Fez um aceno de cabeça ao engemédico que deixou a sala juntamente com a enfermeira e a porta se fechou atrás deles.

O homem na cadeira olhou por cima do ombro, observando a saída deles. Tinha uma nuca esquelética e pequenas rugas em volta dos olhos. Barbeara-se recentemente e os dedos das mãos, que seguravam os braços da cadeira fortemente, apresentavam unhas manicuradas. Era um paciente de alta prioridade e ele estava sendo tratado… Mas em seu rosto havia uma expressão de decidida impertinência.

- Vamos começar hoje? – disse ele.

- Esta tarde, Senador – disse o cirurgião balançando a cabeça.

- Pelo que entendo, levará semanas.

- Não a operação em si, Senador. Mas existe um certo número de pontos subsidiários que devem ser cuidados. Existem algumas renovações de circulação que devem ser realizadas, assim como ajustamentos hormonais. São coisas complicadas.

- E são perigosas? – E então, como se sentisse a necessidade de estabelecer uma relação amigável, mas patentemente contra a sua vontade, acrescentou – … doutor?

O cirurgião não deu atenção às mudanças de expressão. Disse francamente: – Tudo é perigoso. Demoramos para que seja menos perigoso. É o tempo requerido, a habilidade de uma equipe, a instrumentação, que tomam tais operações possíveis somente para tão poucos…

- Sei disso – interrompeu o paciente, com brusquidão. – Recuso-me a sentir culpa quanto a isto. Ou posso deduzir que há alguma pressão imprópria?

- De modo algum, Senador. As decisões do Conselho nunca foram questionadas. Menciono adifículdadee a complicação da operação, simplesmente para expressar meu desejo de que seja conduzida da melhor maneira possível.

- Bem, vá adiante, então. É o meu desejo também.

- Então devo pedir-lhe para tomar uma decisão. É possível dar-lhe um dos dois tipos de cibercorações, em metal ou…

- Plástico! – disse o paciente, irritado. – Não é esta a alternativa que me ia oferecer, doutor? Plástico barato. Não quero. Já fiz minha escolha. Quero metal.

- Mas…

- Escute aqui. Fui informado de que a escolha seria minha. Não é assim?

- Quando dois procedimentos alternativos são de igual valor sob o ponto de vista médico, a escolha recai sobre o paciente. Na prática real, a escolha é do cliente, ainda que os procedimentos alternativos não sejam de igual valor, como no presente caso.

- Está tentando me dizer que o coração de plástico é superior? – indagou o paciente, estreitando os olhos.

- Depende do paciente. Na minha opinião, no seu caso individual, o plástico é superior. E preferimos não usar o termo “plástico”. Dizemos cibercoração fibroso.

- Para mim é plástico de qualquer maneira.

- Senador – disse o cirurgião infinitamente paciente – não se trata de material plástico no sentido comum da palavra. É um material polimérico, sim, mas de um tipo muito mais complexo do que o plástico ordinário. É uma fibra complexa semelhante à proteína, destinada a imitar, tanto quanto possível, a estrutura natural do coração humano que agora está dentro do seu tórax.

- Exatamente, e o coração humano que agora está dentro do meu peito está gasto, embora não tenha atingido ainda os sessenta anos. Não quero outro igual, obrigado. Quero algo melhor.

- Todos nós desejamos o melhor para o senhor, Senador. O cibercoração de fibra será o melhor. Tem uma vida potencial de séculos. É inteiramente não-alérgico…

- Mas não acontece o mesmo com o coração de metal?

- Sim, realmente – disse o cirurgião. – O cibermetálico é de liga de titânio…

- E não se gasta? É mais forte do que o plástico? Ou fibra, ou seja qual for o nome?

- O metal é fisicamente mais forte, sim, mas a resistência mecânica não é o ponto em questão. A resistência mecânica não lhe fará nenhum bem em particular, uma vez que o coração é bem protegido. Qualquer coisa capaz de atingir o coração o matara por outras razões, ainda que o coração possa enfrentar manipulação manual.

- Se alguma vez quebrar uma costela eu a terei substituída por titânio também – disse o paciente dando de ombros. – A substituição de ossos é fácil. Qualquer um pode fazer, em qualquer ocasião. Serei tão metálico quanto desejar, doutor.

- Está no seu direito, se assim prefere. Entretanto, é apenas justo dizer-lhe que, embora nenhum cibercoração metálico tenha quebrado mecanicamente, um certo número quebrou-se eletronicamente.

- O que isto significa?

- Significa que todo cibercoração contém um marcapasso como parte de sua estrutura. No caso da variedade metálica, é um dispositivo eletrônico que mantém o cíber no ritmo. Significa que uma bateria completa de equipamento miniaturizado deve ser incluída para alterar o ritmo do coração, para adequar-se ao estado emocional e físico do indivíduo. Ocasionalmente algo errado acontece e pessoas têm morrido antes de qualquer correção.

- Nunca ouvi falar disso.

- Mas posso assegurar-lhe que acontece.

- Está me dizendo que acontece com freqüência?

- De modo algum. Acontece raramente.

- Bem, então correrei o risco. E quanto ao coração de plástico? Também contém um marcapasso?

- Naturalmente, Senador. Mas a estrutura química de um cibercoração fibroso é muito aproximada da do tecido humano. Responde aos controles iônico e hormonal do próprio corpo. O complexo total que deve ser inserido é muito mais simples do que cibermetálico.

- Mas o coração de plástico nunca se desligou de repente do controle hormonal?

- Nunca se registrou um caso destes.

- Porque vocês não têm estado trabalhando com eles por bastante tempo. Não é verdade?

O cirurgião hesitou.

- É verdade que cíber fibrosos não têm sido tão usados como os metálicos.

- Aí está. Mas o que é que há, doutor? Está com receio que esteja me transformando num robô… um Metallo, como são chamados, desde que a cidadania lhes foi concedida?

- Não há nada de errado com um Metallo, enquanto Metallo. Como o senhor disse, são cidadãos. Mas acontece que o senhor não é um Metallo. É um ser humano. Por que não continuar humano?

- Porque eu quero o melhor e o melhor é um coração metálico. Providencie o resto.

- Muito bem – disse o cirurgião, assentindo. – Será solicitado a assinar as permissões necessárias e em seguida será equipado com um coração de metal.

- E o senhor será o cirurgião responsável? Disseram-me que é o melhor.

- Farei o que puder para facilitar o transplante.

A porta se abriu e a cadeira levou o paciente ao encontro da enfermeira.

O engemédico entrou, olhando por sobre o ombro para o paciente que se retirava até que a porta voltou a fechar-se.

Voltou-se para o cirurgião:

- Bem, não posso dizer o que aconteceu apenas olhando para você. Qual foi a decisão dele?

O cirurgião inclinou-se sobre a mesa, escrevendo os últimos itens do seu relatório.

- O que você predisse. Insiste num cibercoração metálico.

- Afinal de contas, são os melhores.

- Não tanto. Vêm sendo usados há muito tempo, só isso. É uma mania que caiu como uma praga sobre a humanidade, desde que os Metallos tomaram-se cidadãos. Os homens foram tomados pelo estranho desejo de se transformarem em Metallos. Anseiam pela força física e pela resistência associadas a eles.

- Mas tal desejo não é unilateral, doutor. Você não trabalha com os Metallos, mas eu sim. Os últimos dois que me apareceram para reparos solicitaram elementos fibrosos.

- E os obtiveram?

- Em um caso, tratava-se de fornecer tendões e não fazia muita diferença se fosse metal ou fibra. O outro desejava um sistema sangüíneo ou seu equivalente. Disse-lhe que não podia, isto é, não sem uma completa reconstrução da estrutura do seu corpo em material fibroso… Suponho que chegaremos a isso algum dia. Metallos que não serão realmente Metallos, inteiramente, mas compostos de carne e sangue.

- E você não se incomoda com a idéia?

- E por que deveria? E quanto a seres humanos metalizados também? Temos agora duas variedades de inteligência na Terra, e por que me preocupar com as duas? Deixemos que se aproximem uma da outra e, eventualmente, não saberemos dizer qual a diferença. O que deveríamos desejar? Temos o melhor de dois mundos: as vantagens do homem, combinadas com as do robô.

- Tudo o que vai conseguir é um híbrido – disse o cirurgião num tom que se aproximava da violência. – Obterá algo que não será ambos, mas nem um nem outro. Não é lógico supor-se que um indivíduo se orgulhe tanto da sua estrutura e da sua identidade que não possa vir a desejar que elas se diluam em alguma coisa estranha? Será que ele quer a hibridização?

- Isto é conversa de segregacionista.

- Então, que seja – e o cirurgião-acrescentou com ênfase, porém calmo. – Acredito em ser o que se é. Não trocaria uma parcela sequer da minha própria estrutura, por nenhuma razão. Se algo em mim exigisse, realmente, substituição, faria com que tal se realizasse do modo mais aproximado possível da minha natureza original. Eu sou eu mesmo. Contente de ser como sou. E de modo algum seria diferente.

Agora havia terminado, finalmente, e tinha que se preparar para a operação. Colocou as mãos fortes dentro do forno e deixou que atingissem o brilho rubro que as esterilizaria completamente. Com todas as suas palavras apaixonadas, a sua voz nunca se elevou e no seu rosto de metal brunido nunca houve (como sempre) o menor sinal de expressão.

Isaac Asimov
Publicado originalmente no livro Nós, Robôs, Hemus Editora





Versos na Luz

1 10 2008

A última pessoa deste mundo que alguém julgaria um criminoso era a sra. Avis Lardner. Viúva do grande mártir da Astronáutica, era filantropa, colecionadora de arte, uma extraordinária anfitriã e, todos concordavam, um gênio artístico. Acima de tudo, era o mais gentil e bondoso ser humano que se podia imaginar.

O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiaçío da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.

Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.

Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.

Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.

Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.

E havia também, é claro, sua escultura-luz.

Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.

Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.

Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.

Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso – Não, não – dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. – Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” – e todos sorriam da sutil tirada de espírito.

Embora fosse solicitada freqüentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.

- Seria comercialização – costumava dizer.

Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.

- Eu não teria coragem de cobrar um centavo – dizia ela, abrindo bem os braços. – É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.

Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.

Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.

- Por favor, Courtney – quer ter a bondade de ajustar a escadinha?

Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.

Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:

- Não pode fazer isto – disse ele severamente. – Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.

A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:

- Não exijo rapidez e eficiência – disse ela. – Peço boa vontade. Meus robôs me amam.

O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.

Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.

A sra. Lardner sacudiu a cabeça:

- A partir do momento em que o robô está em minha casa – disse – e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.

Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:

- Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.

E pronto!

Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:

- Absolutamente – dizia firmemente – ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.

- Mas por que não manda regulá-lo? – perguntou um amigo, certa ocasião.

- Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.

- Mas, se ele está mal regulado – disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner – não poderá ser perigoso?

- Nunca – a sra. Lardner deu uma risada. – Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.

Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.

Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.

Como poderia cometer um crime?

A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.

Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.

Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.

No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.

Era a única razão de infelicidade em sua vida tranqüila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”…

Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? – mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.

O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desa-lentador.

Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:

- Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.

- Aquele é Max – disse a sra. Lardner.

- Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?

- Oh, não – disse a sra. Lardner. – Seria demasiado trabalho.

- De modo nenhum, sra. Lardner – disse Travis. – A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.

Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.

- Ajustou-o? – perguntou com voz aguda. – Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar… aquele…

Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.

A fisionomia de Travis também se distorceu:

- A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido…

Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele – como se quisesse morrer.

Isaac Asimov
Publicado originalmente no livro Nós, Robôs, Hemus Editora





Estranho no Paraíso

1 10 2008

Eram irmãos. Não no sentido de que ambos eram seres humanos ou de que tivessem sido crianças amigas numa creche. De maneira alguma! Eram irmãos no verdadeiro sentido biológico da palavra. Usando um termo que havia se tornado debilmente arcaico mesmo séculos atrás, antes da Catástrofe, eram parentes, isto quando este fenômeno tribal, a família, ainda tinha alguma validade.

Como isso era embaraçoso!

Com o correr dos anos, desde a infância, Anthony tinha quase esquecido. Ocasiões havia em que, durante meses seguidos, nem uma vez sequer ele pensava no assunto. Agora, porém, desde que tinha sido inextricavelmente colocado junto com William, ele se achava vivendo em meio a um tempo de agonia.

Não teria sido tão ruim se as circunstâncias tivessem tornado isto óbvio o tempo todo; se, como nos dias anteriores à Catástrofe (em certa época Anthony tinha sido um grande leitor de História) tivessem partilhado o segundo nome e daquele modo, e só daquele, alardeado o relacionamento.

Hoje, naturalmente, adotava-se o segundo nome de alguém por mera conveniência, mudando-se tantas vezes quanto necessário. Mesmo porque, o que realmente importava era o símbolo da cadeia, símbolo que era codificado e tornado próprio de uma pessoa desde seu nascimento.

William se autodenominava Anti-Aut. Era nisto que ele insistia, com uma espécie de sóbrio profissionalismo. Assunto dele mesmo, seguramente, mas que propaganda de mau gosto! Anthony decidira por Smith ao chegar aos treze anos e nunca tivera impulso de mudar de nome. Era simples, fácil de escrever, fácil de distinguir, uma vez que nunca encontrara alguém mais que tivesse escolhido aquele nome. Outrora fora muito comum, entre os habitantes do planeta anteriores à Catástrofe, os pré-Cats, o que talvez explicasse sua raridade de agora.

Mas a diferença de nomes nada significava quando os dois estavam juntos. Pareciam iguais.

Tivessem sido gêmeos… mas, naqueles tempos, não se permitia que viesse a nascer um dos dois quando um óvulo era fertilizado de modo a dar origem a gêmeos. O que havia, apenas, era que, ocasionalmente, se manifestava uma similaridade física entre não-gêmeos, especialmente quando o relacionamento era de ambos os lados. Anthony Smith era cinco anos mais moço, mas ambos possuíam o nariz adunco, as espessas pálpebras, aquela covinha que mal dava para notar no queixo, o raio da loteria genética. Bastava apelar para ela quando, independentemente de alguma paixão pela monotonia, as origens se repetiam.

Agora que estavam juntos, primeiro tiveram aquele olhar sobressaltado, seguido de um longo silêncio. Anthony tentou ignorar o assunto, mas por pura perversidade, ou perversão, William estava mais inclinado do que nunca a dizer:

- Nós somos irmãos.

- Hã? – diria o outro, detendo-se por um momento, como se quisesse indagar se eram autênticos irmãos de sangue. E então a boa educação prevaleceria e ele desprezaria o assunto, como se fosse algo sem interesse. Claro que só raramente isto acontecia. A maioria das pessoas no Projeto sabiam disto e como se poderia impedir que soubessem?! Mas evitavam a situação.

Não que William fosse um mau sujeito. De jeito nenhum. Se ele não fosse irmão de Anthony, ou se fosse, mas parecessem suficientemente diferentes para serem capazes de mascarar o fato, eles teriam chegado à fama.

Mas, do jeito que as coisas eram…

O fato de, quando meninos, terem brincado juntos, e terem compartilhado os primeiros estágios de educação no mesmo local, através de alguma manobra bem sucedida da mãe, não tornava as coisas fáceis. Tendo dado à luz dois filhos do mesmo pai, e tendo, desta maneira, atingido seu limite (visto que não preenchera os rigorosos requisitos para um terceiro), ela concebeu a noção de ser capaz de visitar os dois numa única viagem. Era uma estranha mulher.

O primeiro a deixar a instituição em que estava fora William, por ser o mais velho. Tinha se encaminhado para a ciência: engenharia genética. Anthony ouvira falar disto enquanto ainda estava na creche, através de uma carta de sua mãe. Já então era suficientemente crescido para se manifestar com firmeza junto à diretora, e aquelas cartas cessaram. Mas ele se lembrava da última, pela agoniada vergonha que lhe trouxera.

Posteriormente, Anthony também se encaminhara para a ciência, mostrara talento para isto e fora instado a optar pela ciência. Lembrava-se de ter um verdadeiro e profético pavor, percebia-o agora, de encontrar seu irmão, e de que acabasse fazendo telemetria que bem se pode imaginar o quanto distava da engenharia genética… Ou assim pensaria alguém.

Então, em meio ao cuidadoso desenvolvimento do Projeto Mercúrio, as circunstâncias como que aguardavam.

Foi quando parecia que o Projeto estava num beco sem saída que a ocasião se manifestou, fora feita uma sugestão que salvara a situação, e ao mesmo tempo arrastara Anthony para dentro do dilema que seus pais lhe haviam preparado. E a melhor, a mais irônica parte de tudo, era que fora o próprio Anthony, muito inocentemente, quem fizera a sugestão.

William Anti-Aut conhecia o Projeto Mercúrio, mas só na medida em que ouvira falar da muito prolongada Prova Estelar, que já estava em desenvolvimento bem antes de ele nascer e que continuaria em curso depois de ele morrer, e na medida em que sabia da colônia marciana e das continuadas tentativas para estabelecer colônias similares nos asteróides.

Tais coisas estavam nas regiões mais afastadas de sua mente e não eram de real importância. Nenhum aspecto do esforço parcial jamais penetrara intimamente no centro de seus interesses, tanto quanto pudesse recordar, até o dia em que o jornal computadorizado incluiu fotografias de alguns dos homens empenhados no Projeto Mercúrio.

Inicialmente, a atenção de William foi atraída pelo fato de um deles ter sido identificado como Anthony Smith. Lembrava-se do estranho nome que seu irmão tinha escolhido, e lembrava-se do Anthony. Seguramente não poderia haver dois Anthony Smith.

Olhara então para a fotografia propriamente dita e não havia como se enganar quanto ao rosto. Num súbito gesto extravagante, olhara-se no espelho para tirar a dúvida. Não havia como enganar-se quanto ao rosto.

Sentiu-se bem-humorado, mas, ao mesmo tempo, um pouco inquieto, eis que não deixava de reconhecer o embaraço em potencial. Irmãos consangüíneos, para usar a desagradável frase. Dava para fazer alguma coisa, porém? Como corrigir o fato de que nem o pai nem a mãe deles haviam previsto o ocorrido?…

Sem atinar com a coisa, deve ter posto o jornal no bolso ao se aprontar para ir trabalhar, pois deu com ele na hora do almoço. Olhou fixamente para a foto: Anthony parecia vivido. Era uma reprodução muito boa, naqueles dias, os jornais eram de uma qualidade muitíssimo boa.

Seu companheiro de almoço, Marco Fosse-lá-qual-fosse-o-nome-dele-aquela-semana, disse curiosamente: – Por que está olhando para isso, William?

Sem hesitar, William passou-lhe o jornal, dizendo:

- Este é meu irmão. – Era como se estivesse tocando numa urtiga.

Marco examinou a foto, ficou carrancudo e disse:

- Quem? O sujeito ao seu lado?

- Não, o sujeito que é eu. Quer dizer, a pessoa parecida comigo. É meu irmão.

Desta vez, a pausa foi mais longa. Marco devolveu o jornal e disse, com um tom de voz cuidadosamente homogêneo:

- Irmão dos mesmos pais?

- Sim.

- Mesmo pai e mesma mãe?

- Sim.

- Ridículo!

- Acho que sim – suspirou William. – Bem, de acordo com isto, ele está na telemetria, lá no Texas, e eu estou trabalhando em autismo aqui. Que diferença faz, então?

William nem reteve o diálogo na cabeça e, mais tarde, no mesmo dia, desfez-se do jornal. Não queria que sua atual companheira de leito tomasse conhecimento da coisa. Ela tinha um irreverente senso de humor que William achava cada vez mais enfadonho. Ele até que se contentava por ela não estar com disposição de terem um filho, mesmo porque, de qualquer forma, ele já tivera um, ano atrás. Aquela moreninha linda, Laura ou Linda, para tanto havia colaborado.

Passara-se algum tempo depois disto, um ano pelo menos, quando o assunto Randall veio à baila. Não tivesse William pensado mais em seu irmão e não pensara mesmo, antes disso, certamente que depois é que não teria tempo.

Randall tinha dezesseis anos quando William pela primeira vez recebeu notícias dele. Vivera uma vida cada vez mais solitária e a creche de Kentucky em que ele estava sendo criado decidira cancelá-lo. Lógico que foi só uns oito ou dez dias antes do cancelamento que alguém teve a idéia de comunicar-se com o Instituto Nova-iorquino pela Ciência do Homem, conhecido comumente como Instituto Homológico.

William recebeu o informe junto com vários outros e nada havia na descrição de Randall que atraísse particularmente sua atenção. E mais: era a ocasião de mais uma de suas tediosas viagens em transporte coletivo para as creches e havia uma possibilidade na Virgínia Ocidental. Lá se foi ele e ficou desapontado a ponto de jurar, pela qüinquagésima vez, que daí por diante faria aquelas visitas por imagem televisionada e agora, tendo se arrastado para cá, bem que poderia comparecer à creche de Kentucky antes de voltar para casa.

Nada esperava.

Mesmo assim, não fazia nem dez minutos que estava estudando o padrão genético de Randall e já estava se comunicando com o Instituto para um cálculo de computador. Sentou-se de novo, depois disso, e transpirou ligeiramente ao pensar que só um impulso de última hora o havia trazido e que, sem esse impulso, tranqüilamente Randall teria sido cancelado, dentro de uma semana ou menos. Os detalhes: sem dor, uma droga seria passada através da epiderme de Randall, penetrando em sua corrente sangüínea e ele mergulharia num pacífico sono que gradualmente se converteria em morte. O nome oficial da droga eTa uma palavra com vinte e três sílabas, mas William a denominava de “nirvanamina”, como todas as outras pessoas.

William disse:

- Qual é o nome todo dele, diretora?

- Randall Nowan, estudante – respondeu ela. William explodiu: – Não pode ser!

- Nowan – soletrou a diretora. – Ele o escolheu no ano passado.

- E não significava nada, para a senhora? Nowan a gente pronuncia como “No one”, quer dizer, ninguém. Não lhe ocorreu informar a respeito da existência deste jovem no ano passado?

Aturdida, a diretora começou:

- Não me parecia…

William impôs-lhe silêncio. Que adiantava? Como poderia ela saber? Nada havia no padrão genético que advertisse, mediante quaisquer dos critérios habituais dos livros  didáticos. Era uma sutil combinação que William e sua equipe tinham desenvolvido durante um período de vinte anos através de experimentos em crianças autístas, uma combinação que, na verdade, nunca haviam visto na vida.

Tão perto do cancelamento!

Marco, que era o cabeça-dura do grupo, lamentava que as creches estivessem muito ansiosas para abortarem antes do prazo e para cancelar depois do prazo. Ele sustentava que deveria ser permitido que os padrões genéticos se desenvolvessem com a finalidade para se ter, inicialmente, um panorama e que de forma alguma deveria ser feito um cancelamento sem se consultar um homologista.

Tranqüilamente, William disse:

- Não há homologistas suficientes.

- Poderíamos pelo menos pôr no computador todos os padrões genéticos – disse Marco.

- Para salvar o que pudermos, para nosso uso?

- Para qualquer uso homológico, aqui ou alhures. Precisamos estudar os padrões genéticos em ação, se quisermos nos entender a nós mesmos adequadamente, e são os padrões anormais e monstruosos que mais informações nos dão. Nossos experimentos com autismo ensinaram-nos mais sobre a homologia do que a soma total de conhecimentos existentes no dia em que começamos.

William, que ainda gostava da cadência da frase “a fisiologia genética do homem” mais do que “homologia”, sacudiu a cabeça.

- É a mesma coisa, temos de agir com cuidado. Por mais úteis que proclamemos serem nossos experimentos, vivemos com uma escassa permissão social, relutantemente dada. Estamos jogando com vidas.

- Vidas inúteis, próprias para serem canceladas.

- Um cancelamento rápido e agradável é uma coisa. Nossos experimentos, geralmente planejados com vagar, e às vezes inevitavelmente desagradáveis, são outra coisa.

- Às vezes nós os ajudamos.

- E outras vezes não os ajudamos.

Era um argumento inútil, na verdade, pois não havia como chegar a um acordo. O que importava, isto sim, é que havia muito poucas anormalidades disponíveis para os homologistas e não havia maneira de urgir a humanidade a encorajar uma produção maior. Uma dúzia de maneiras, incluindo esta, não seria suficiente para apagar o trauma da Catástrofe.

O apaixonado impulso em direção da exploração espacial poderia ser percorrido às avessas (e alguns sociólogos o haviam percorrido) para se conhecer a fragilidade da meada da vida, no planeta, graças à Catástrofe.

Bem, não importa…

Nunca tinha havido algo como Randall Nowan. Não para William. A lenta evolução da característica autista daquele padrão genético totalmente raro significava que se conhecia mais a respeito de Randall do que sobre qualquer paciente semelhante antes dele. Chegaram mesmo a captar alguns últimos reflexos indistintos de sua maneira de pensar, no laboratório, antes de ele se encerrar completamente e, finalmente, encolher-se dentro da parede de sua pele, não preocupado, não atingível.

Começaram então o lento processo mediante o qual Randall, sujeito em crescentes intervalos de tempo a estímulos artificiais, cedeu às últimas atividades de seu cérebro, nisto incluindo a parte chamada de normal e a que era como a dele mesmo.

Tão abundantes eram os dados que estavam reunindo, que William começou a sentir que seu sonho de fazer o autismo reverter era mais do que um mero sonho. Sentiu uma cálida alegria por ter escolhido o nome de Anti-Aut.

E foi quase no auge da euforia derivada do trabalho em Randall que ele recebeu o chamado de Dallas, que começou a pesada pressão agora, de todos os tempos, para abandonar seu trabalho e assumir um novo problema.

Posteriormente, lançando um olhar retrospectivo, ele jamais poderia vir a compreender o que é que o levara a concordar em visitar Dallas. Naturalmente que, ao final, ele bem poderia ver quão bom isto tinha sido, mas o que é que o persuadira a proceder assim? Poderia ele, mesmo de início, ter tido uma pálida e incompleta noção daquilo em que a coisa desembocaria? Impossível, com toda a certeza.

Seria a recordação, incompleta, do jornal, daquela fotografia de seu irmão? Impossível, com toda a certeza.

Mas ele se deixou persuadir a fazer a visita, e foi somente quando a micropilha mudou o tom de seu zumbido e a unidade agrav assumiu o comando para a descida final que ele se lembrou daquela fotografia ou, pelo menos, foi que ela se deslocou para seu consciente, em sua memória.

Anthony trabalhava em Dallas e, lembrava-se William agora, no Projeto Mercúrio. Era a isso que se referia o título do jornal. Ele engoliu em seco quando uma fraca vibração o fez aperceber-se de que a viagem terminara. Isto seria desagradável.

 

 

3.

 

Anthony estava aguardando na área da cobertura de recepção para saudar o perito recém-chegado. Não o saudava em seu próprio nome, por certo, pois fazia parte de uma considerável delegação, cujo tamanho já denotava, em si mesmo, o sombrio desespero ao qual tinha sido reduzida, e ele estava nos escalões inferiores. Que ele lá estivesse, de qualquer forma, se devia unicamente ao fato de ter ele sido quem fizera a sugestão original.

Sentia uma leve mas contínua inquietação ao pensar que dele é que partira a sugestão. Ele próprio se pusera em evidência. Para tanto, fora firmemente apoiado, mas sempre tinha havido uma surda insistência quanto ao fato de que a sugestão fora dele, e se ela redundasse num fiasco, todos sairiam da linha de fogo deixando-o completamente exposto.

Houve ocasiões, posteriormente, em que ele remoeu a possibilidade de que a vaga memória de um irmão homólogo lhe sugerira o pensamento. Podia ter sido assim, mas não foi. A sugestão era tão sensivelmente inevitável, na verdade, que seguramente ele teria o mesmo pensamento se seu irmão fosse algo tão inócuo como um escritor de histórias de fantasia ou como se simplesmente não tivesse nenhum irmão.

O problema eram os planetas interiores…

Lua e Marte estavam colonizados. Tinham sido atingidos os asteróides maiores e os satélites de Júpiter, e progrediam os planos para uma viagem tripulada até o maior satélite de Saturno, Titã, mediante uma acelerada rotação em torno de Júpiter. Mas, mesmo com planos em andamento no sentido de se enviarem homens numa viagem de sete anos de duração para fora do Sistema Solar, não havia ainda nenhuma possibilidade de viagens tripuladas aos planetas interiores, por receio do Sol.

O próprio planeta Vênus era o menos atraente dos dois mundos dentro da órbita da Terra. Mercúrio, por outro lado…

Anthony ainda não se integrara à equipe quando Dmitri Grandão (que na verdade era um bocado pequeno) fizera a palestra que comovera o suficiente o Congresso Mundial para conceder as verbas que tornaram possível o Projeto Mercúrio.

Anthony ouvira as fitas com as gravações, e tinha ouvido a alocução de Dmitri. A tradição parecia indicar que ele falara de improviso, e talvez assim fosse, mas sua argumentação fora muito bem elaborada e era coerente, dentro das linhas seguidas até então pelo Projeto Mercúrio.

E o ponto que mais fora ressaltado era que seria errado aguardar até que a tecnologia tivesse avançado ao ponto de uma expedição tripulada, em meio aos rigores da radiação solar, se tornar viável. Mercúrio era um ambiente muito peculiar, que muito poderia ensinar, e da superfície de Mercúrio poderiam ser feitas observações dignas de crédito, que de outra maneira não poderiam ser feitas.

Desde que um substituto do homem, em outras palavras, um robô, pudesse ser colocado no planeta.

Um robô com as características físicas necessárias poderia ser fabricado. Aterrissagens suaves eram a coisa mais fácil, mas, não obstante, uma vez pousado um robô noutro planeta, em seguida que é que se poderia esperar que ele fizesse?…

Poderia fazer suas observações e guiar suas ações com base nessas observações, mas o Projeto queria que essas mesmas ações fossem intrincadas, sutis, pelo menos em tese, e não havia certeza alguma quanto a que observações o robô viria a fazer.

Para haver uma preparação para todas as possibilidades críveis, e para permitir toda a complexidade desejada, o robô precisaria conter um computador (alguns, em Dallas, referiam-se a ele como “o cérebro”, mas Anthony desprezava aquele hábito verbal talvez porque, dizia ele depois com seus próprios botões, o cérebro era campo de seu irmão) suficientemente complexo e versátil para cair no mesmo asteróide com um cérebro de mamífero.

Todavia, nada semelhante àquilo poderia ser fabricado e tornado suficientemente portátil para ser transportado até Mercúrio e lá desembarcado ou, se transportado e desembarcado, ser suficientemente móvel para ser útil ao tipo de robô que planejavam. Talvez um dia, os instrumentos com trilhas positrõnicas que os roboticistas estavam a planejar pudessem tornar tudo isto possível, mas esse “um dia” ainda não havia chegado.

A alternativa era fazer com que o robô enviasse à Terra cada observação no momento em que ela fosse feita. E, então, um computador na Terra poderia dirigir cada uma de suas ações, com base em tais observações. Em outras palavras: o corpo do robô estaria lá, e seu cérebro aqui.

Uma vez alcançada esta decisão, os técnicos-chave eram os telemetristas e foi então que Anthony se integrou ao Projeto. Tornou-se um dos que trabalhavam para criar métodos de recepção e retorno de impulsos através de distâncias que iam de 80 a 220 milhões de quilômetros, tudo isto na direção, e às vezes até além, de um disco solar que poderia interferir em tais impulsos da maneira a mais feroz.

Ele assumiu com paixão sua tarefa (finalmente, pensou) com capacidade e sucesso. Ele, mais do que qualquer outra pessoa, fora quem planejara as três estações «transmissoras que tinham sido postas em órbita em torno de Mercúrio, os Orbitadores de Mercúrio. Cada uma delas era capaz de enviar e receber impulsos de Mercúrio para a Terra e da Terra para Mercúrio. Cada uma delas era capaz de resistir, mais ou menos permanentemente, à radiação solar e, mais do que isto, cada uma delas poderia filtrar a interferência solar.

Três orbitadores equivalentes foram colocados à distância de quase dois milhões de quilômetros da Terra, ao norte e ao sul do plano da Eclíptica, de forma a poderem receber impulsos de Mercúrio e repassá-los à Terra ou vice-versa, mesmo quando Mercúrio estivesse atrás do Sol e inacessível à recepção direta de qualquer estação na superfície da Terra.

Tudo isto fazia do robô propriamente dito um maravilhoso espécime da combinação da arte dos roboticistas e dos telemetristas.

O mais complexo de dez sucessivos modelos era capaz, tendo um volume apenas pouco mais de duas vezes maior que o de um homem, e cinco vezes sua massa, de captar e fazer consideravelmente mais do que um homem, se pudesse ser dirigido.

Entretanto, logo se tornou evidente que um computador capaz de guiar semelhante robô teria de ser suficientemente rápido para mudar os passos de orientação a cada instante, para permitir variações na possível percepção. E como passo de resposta, por si mesmo, reforçava a certeza de crescente complexidade de cada variação possível nas percepções, os passos iniciais tinham de ser reforçados e fortalecidos. Era como se o computador se construísse a si próprio, continuamente, como uma partida de xadrez. E os telemetristas começaram a usar o computador para programar o computador que planejara o programa para o computador que programara o computador que controlaria o robô.

Nada havia a não ser confusão.

O robô estava numa base, nos espaços desertos do Arizona e, por si só, estava funcionando bem. Contudo, o computador em Dallas não poderia dar muito bem conta dele nem mesmo nas condições terrestres, perfeitamente conhecidas. Como, então…

Anthony lembrava-se do dia em que fizera a sugestão: 4-7-553. Pela simples razão de que o dia 4-7 havia sido um feriado importante na região de Dallas, no mundo dos pré-Cats, os de antes da Catástrofe, meio milênio antes, mais exatamente 553 anos antes.

Tinha sido no jantar, um bom jantar, também. Tinha havido um cuidadoso ajustamento da ecologia da região e os integrantes da equipe do Projeto tinham tido prioridade total para obter suprimentos de mantimentos que haviam se tornado disponíveis, de forma que tinha havido um grau incomum de escolha do cardápio. E Anthony experimentara pato assado.

Era um pato assado muito bom, bem maior do que de costume. Todos se sentiam à vontade para dizerem o que pensavam. E Ricardo disse:

- Vamos admitir: nunca conseguiremos fazer isto. Nunca conseguiremos.

Não era preciso dizer quantos assim haviam pensado, anteriormente, mas era regra que ninguém o dissesse abertamente. O pessimismo aberto poderia ser a pá de cal para que parassem as verbas (e já fazia cinco anos que elas vinham com crescente dificuldade, a cada ano que passava), e se houvesse uma chance, ela poderia se dissipar.

Geralmente não dado a um otimismo incomum, Anthony, desta vez se deleitando com seu pato, disse: – Por que não podemos?

Digam-me por que, e eu os refutarei.

Era um desafio direto e os escuros olhos de Ricardo imediatamente se apertaram. – Quer que eu diga por quê?

- Lógico que sim.

Ricardo girou sua poltrona, de forma a dar de frente com Anthony.

- Vamos lá, não há mistério. Em nenhum relatório Dmitrí Grandão diria as coisas tão abertamente, mas você sabe, e eu sei, que, para levar a efeito adequadamente o Projeto Mercúrio, necessitaremos de um computador tio complexo quanto um cérebro humano, seja na superfície de Mercúrio, seja aqui, e não dá para construirmos um. E aonde é que isto nos conduz? A umas brincadeiri-nhas com o Congresso Mundial, apenas, e a conseguir dinheiro para dar trabalho a desocupados?

Um sorriso complacente assomou ao rosto de Anthony, que disse:

- Isso é fácil de refutar. Você próprio nos deu a resposta. -(Estaria ele brincando? Seria o calorzinho gostoso do pato em seu estômago? A vontade de provocar Ricardo?… Ou teria ele sido tocado por algum pensamento não pressentido de seu irmão? Além do mais, não havia para ele como se exprimir.)

- Que resposta? – ergueu-se Ricardo. Era bem alto e incomumente magro e sempre usava seu casaco branco aberto. Cruzou os braços e parecia estar fazendo todo o possível para se manter, de pé, diante de Anthony, sentado, numa postura rígida. – Que resposta?

- Você diz que precisamos de um computador tão complexo quanto um cérebro humano. Muito bem: vamos então construí-lo!

- O problema, seu idiota, é que não podemos…

- Nós não podemos. Mas existem os outros.

- Que outros?

- Naturalmente, as pessoas que trabalham em cérebros. Somos apenas mecânicos do estado sólido. Não temos a menor idéia da maneira pela qual um cérebro humano é complexo, ou onde, ou até que ponto. Por que não entramos em contacto com um homologista e pedimos a ele que projete um computador? – Dito isto, Anthony ingeriu uma generosa porção de recheio e saboreou-a, complacentemente. Mesmo com todo o tempo transcorrido, ele ainda podia muito bem se lembrar do gosto do recheio, se bem que não pudesse se recordar detalhadamente do que ocorrera depois.

Pareceu-lhe que ninguém o havia levado a sério. Houve risadas e uma sensação generalizada de que Anthony havia se saído muito bem com sua esperta argumentação, de forma que a vítima dos risos era Ricardo. (Lógico que, posteriormente, todos proclamariam que tinham levado a sugestão a sério.)

Chamejando, Ricardo apontou o dedo para Anthony e disse:

- Escreva isto. Desafio-o a pôr por escrito esta sugestão. – (Pelo menos, era assim que a memória de Anthony registrava o fato. Ricardo, desde aquela vez, dizia que seu comentário tinha sido um entusiástico: – Boa idéia! Por que não a formula por escrito, Anthony?)

Fosse como fosse, Anthony escreveu.

Dmitri Grandão assumira a idéia. Num colóquio particular, dera uns tapinhas amistosos nas costas de Anthony dizendo-lhe que também estivera especulando neste sentido, se bem que não se propusesse a assumir qualquer paternidade pela idéia. (Isto para o caso de redundar num fiasco, pensou Anthony.)

Dmitri Grandão dirigiu a busca do homólogo adequado. Não ocorreu a Anthony que Dmitri deveria estar interessado. Não conhecia nem homologia nem homólogos, exceto, logicamente, seu irmão, em quem não pensara. Pelo menos, conscientemente não cogitara dele.

De forma que aqui estava Anthony, na área de recepção, desempenhando um papel secundário, quando a porta da aeronave se abriu e vários homens saíram, vieram cumprimentá-lo. Enquanto o circuito dos apertos de mão era percorrido, Anthony se sentiu um tanto apalermado.

Suas bochechas estavam ruborizadas e, com toda a sua força de vontade, gostaria de estar a milhares de quilômetros de distância.

 

 

4.

 

Mais do que nunca, William desejaria ter se lembrado mais cedo de seu irmão. Se tivesse… Bem que deveria…

Mas tinha havido a lisonja da solicitação e a excitação começara a aumentar dentro dele em pouco tempo. Talvez ele tivesse evitado de se lembrar de propósito.

Para começar, tinha havido a excitação que fora o fato de Dmitri Grandão ter vindo vê-lo por sua própria iniciativa. Viera de Dallas para Nova Iorque de avião e tinha sido muito cativante para com William, cujo vício secreto era ler novelas de mistério. Nestas histórias, homens e mulheres sempre viajavam disfarçados quando se desejava discrição. Afinal, apesar da viagem eletrônica ser de domínio público, pelo menos nos livros de mistério, quando qualquer feixe de radiação era emitido, ele era logo cancelado.

William assim falara numa espécie de mórbida meia tentativa de ser engraçado, mas Dmitri não parecia prestar atenção. Olhava fixamente para o rosto de William e seus pensamentos pareciam estar noutro lugar. Por fim, falou:

- Desculpe. Você me lembra alguém.

(E, não obstante, ele não se confiara a William. Como era possível isto? Chegara William eventualmente a se interrogar.)

Dmitri Grandão era um homenzinho rechonchudo, que parecia estar sempre piscando, mesmo quando se dizia preocupado ou aborrecido. Tinha um nariz redondo e bulboso, bochechas bem salientes e, por toda parte, delicadeza. Dava ênfase a seu apelido e dizia, com uma rapidez que levava William a crer que ele pronunciava estas palavras com freqüência:

- Tamanho não é, de jeito nenhum, o que há de mais importante, amigo.

Na conversa que se seguiu, William protestou muito. Nada sabia de computadores. Nada! Não tinha a mais pálida idéia de como é que funcionavam ou de como eram programados.

- Não tem importância, não tem importância – dizia Dmitri, fazendo com a mão um gesto a dizer que isso era de somenos. – Nós conhecemos os computadores, nós podemos estabelecer programas. Diga-nos apenas como é que o computador precisa ser, de forma a trabalhar como um cérebro e não como um computador.

- Não estou muito certo de como funciona um cérebro para poder lhe dizer isso, Dmitri – disse William.

- Você é o mais reputado homólogo do mundo. Verifiquei cuidadosamente isto – afirmou Dmitri. E foi seu argumento final.

William ouvia, cada vez mais sombrio. Era inevitável, supunha ele. Mergulhe-se uma pessoa numa especialidade suficientemente fundo e durante tempo suficiente, e automaticamente esta pessoa começará a admitir que os especialistas em todos os outros campos eram uns mágicos, julgando a profundidade de sua sabedoria pela largura de sua própria ignorância… E conforme o tempo passava, William aprendeu muito mais sobre o Projeto Mercúrio do que lhe parecia no tempo em que se preocupava com isso.

Por fim, disse:

- Por que usar então um computador? Por que não utilizar nossos próprios homens, ou turmas deles, para receberem o material do robô e lhe enviarem instruções?

- Oh, oh, oh – gargalhou Dmitri, quase pulando em sua poltrona, tamanha a sua ansiedade. – Vê-se que você não está por dentro. Os homens são lentos demais para analisar rapidamente todo o material que o robô enviará: temperaturas, pressões gasosas, fluxos de raios cósmicos, intensidades de ventos solares, composições químicas e texturas de solos e, seguramente, umas três dúzias a mais de itens e, então, tentar decidir o passo seguinte. Um ser humano simplesmente guiaria o robô, e ineficientemente; um computador seria o robô.

- E então, também – prosseguiu – os homens também são rápidos demais. Para qualquer tipo de radiação, de qualquer lugar, leva de dez a vinte e dois minutos para fazer o percurso inteiro de Mercúrio à Terra, na dependência também da órbita de cada um. Sobre isso, nada se pode fazer. Recebe-se uma informação, dá-se uma ordem, mas muito aconteceu durante o tempo que medeia entre fazer a observação e encaminhar uma resposta. Os homens não podem se adaptar à lentidão da velocidade da luz, mas um computador pode levar isso em conta… Venha nos auxiliar, William.

Melancolicamente, William disse:

- Sua consulta a mim é bem-vinda, pelo bem que isto lhe possa fazer. Minha faixa particular de TV está às suas ordens.

- Mas não é consulta que eu quero fazer: você precisa vir comigo.

- Disfarçado? – perguntou William, chocado.

- Sim, por certo. Um projeto como este não pode ser levado a efeito sentando-se a gente nas extremidades opostas de um feixe de laser com um satélite de comunicações no meio. A longo prazo, é caro demais, inconveniente demais e, logicamente, destituído de toda privacidade…

Era como uma novela de mistério. William se decidiu.

- Venha até Dallas – disse Dmitri – e deixe-me mostrar-lhe o que temos lá. Deixe-me mostrar-lhe as instalações. Fale com alguns dos nossos que cuidam de computador. Dê-lhes o benefício de lhes transmitir a maneira que você tem de pensar.

Era hora, pensou William, de tomar uma decisão. E disse:

- Tenho meu próprio trabalho, aqui, Dmitri. Trabalho importante, que não quero deixar. Fazer o que você quer que eu faça me afastará por meses de meu laboratório.

- Meses! – exclamou Dmitri, claramente abalado. – Meu bom William, isto poderá durar anos. Mas seguramente será o seu trabalho.

- Não será, não. Sei qual é meu trabalho e dirigir um robô em Mercúrio não é meu trabalho.

- Por que não? Se você trabalha direito, aprenderá mais sobre o cérebro, apenas pelo fato de tentar fazer um computador trabalhar como um cérebro, e finalmente você voltará para cá melhor equipado para fazer o que você agora considera como sendo seu trabalho. E enquanto estiver ausente, será que não haverá companheiros seus para prosseguir na tarefa? E não poderá você estar em contacto permanente com eles, por meio de laser ou de televisão? E de vez em quando não poderá visitar Nova Iorque? Nem que seja por pouco tempo?

William estava comovido. O pensamento de trabalhar no cérebro de outro ponto de vista atingira o alvo. Daquele ponto em diante, ele se achou à procura de desculpas para ir, pelo menos para visitar, pelo menos para ver como era a coisa… Sempre poderia retornar…

Seguiu-se então a visita de Dmitri às ruínas da Velha Nova Iorque, que ele apreciou com uma excitação destituída de arte (se bem que, àquela época, não houvesse nenhum espetáculo mais magnificente do inútil gigantismo dos Pré-Cats do que a Velha Nova Iorque). William começou a pensar se a visita não estava começando a mostrar aspectos desconhecidos até então, mesmo para ele.

Começou mesmo a pensar que, durante certo tempo, estivera considerando a possibilidade de achar nova companheira de leito, e seria mais conveniente achar uma noutra área geográfica, onde não poderia permanecer permanentemente.

… Ou não seria que, mesmo então, quando ele não sabia de nada, a não ser do estritamente necessário para começar, que também lhe tinha chegado, como o piscar de uma distante lâmpada de iluminação, aquilo que poderia ser…

De forma que ele acabou indo para Dallas e desceu para a cobertura. E lá estava de novo Dmitri, radiante. Então, com os olhos se comprimindo, o homenzinho se voltou e disse:

- Eu sabia… Que semelhança notável!

Os olhos de William se abriram mais e ali, visivelmente se encolhendo para trás, havia o bastante de seu próprio rosto para lhe dar imediata certeza de que Anthony estava de pé, diante dele.

Com muita franqueza, percebeu na fisionomia de Anthony um desejo de sepultar o relacionamento. Tudo que William precisava era dizer:

- Notável! E deixar as coisas correrem. Os padrões genéticos da humanidade eram suficientemente complexos, afinal de contas, para permitir semelhanças num razoável grau mesmo não havendo parentesco.

Mas, logicamente, William era um homólogo, e ninguém pode trabalhar com as complexidades do cérebro humano sem ficar insensível a seus detalhes. De forma que ele disse:

- Estou certo de que este é meu irmão, Anthony.

- Seu irmão? – perguntou Dmitri.

- Meu pai – falou William – teve dois meninos com a mesma mulher… minha mãe. Eram pessoas excêntricas.

Adiantou-se, então, mão estendida, e Anthony não teve outra alternativa senão aceitá-la… O incidente foi o assunto da conversa, o único assunto, durante os dias seguintes.

 

 

5.

 

Para Anthony, serviu de pequeno consolo o fato de William estar suficientemente contrito, ao se dar conta do que fizera.

Sentaram-se juntos, após o jantar, naquela noite. William disse:

- Minhas desculpas. Pensei que se fizéssemos tudo imediatamente seria pôr um fim a tudo. Não parece que foi o que fiz. Não assinei papéis, não fiz um acordo formal. Vou embora.

- Que bem isso lhe traria? – disse Anthony indelicadamente. – Agora todo mundo sabe. Dois corpos e um rosto. Já dá para alguém vomitar.

- Se eu for embora…

- Não pode ir. Tudo isto é idéia minha.

- Fazer eu vir para cá? – As pesadas pálpebras de William se ergueram o mais que podiam e suas sobrancelhas se ergueram.

- Não, claro que não. Fazer um homólogo vir aqui. Como é que eu poderia imaginar que mandariam você?

- Se eu for embora, porém…

- Não. A única coisa que podemos fazer agora é conviver com o problema, se se pode fazer isto. Então… não terá importância. (Quando uma pessoa tem sucesso, tudo se esquece, pensou ele).

- Não sei se eu posso…

- Teremos de tentar. Dmitri nos auxiliará: é uma oportunidade muito boa. Vocês são irmãos – disse Anthony, imitando a voz de Dmitri – e se entendem. Por que não trabalharem juntos? – Então, voltando à sua voz, concluiu, irado: – De forma que precisamos. Para começar: que significa isto para você, William? Para ser mais preciso: que significa a palavra “homologia” para você?

William suspirou.

- Queira aceitar minhas desculpas… Trabalho com crianças autísticas.

- Acho que não sei o que isso significa.

- Para não contar um romance, digamos que cuido de crianças que não se “lançam” para o mundo, que não se comunicam com os outros, que mergulham dentro de si mesmas e que existem atrás de uma muralha de pele, num certo sentido inatingíveis. Espero ser capaz, um dia, de curá-las.

- É por isso que você se intitula Anti-Aut?

- Sim, para ser franco.

Anthony deu uma risadinha, mas o fato é que não se sentia à vontade.

Um estremecimento percorreu William:

- É um nome adequado.

- Não tenho dúvida – apressou-se Anthony em murmurar, e ficou por aí mesmo, incapaz de fazer algum outro elogio ou consideração. Com um esforço, voltou ao assunto: – E você está progredindo?

- Você diz na direção da cura? Não, por enquanto não. Na direção da compreensão, sim. E quanto mais entendo… – A voz de William tornóu-se mais cálida enquanto falava, e mais distantes seus olhos. Anthony entendeu que isto se devia ao próprio assunto de que o irmão falava, o prazer de falar de algo que lhe enchia o coração e a mente a ponto de excluir qualquer outra coisa. Com ele também acontecia isto, freqüentemente.

Prestou atenção o mais que pôde a algo que, verdadeiramente, não compreendia, eis que assim era necessário proceder. Esperava que William lhe prestasse atenção, também.

Quão claramente ele se lembrava disto! Pensara então que não se lembraria tão bem, naturalmente, mas não estava cônscio do que estava acontecendo. Rememorando, à luz dos fatos passados, ele se achou a recordar frases inteiras, quase que palavra por palavra.

William falava:

- Pareceu-nos, pois, que a criança autista não falhava no receber as impressões, nem mesmo falhava no interpretá-las de uma maneira um tanto sofisticada. Antes, estava desaprovando e rejeitando tais impressões, sem qualquer perda da potencialidade da plena comunicação se se achasse alguma impressão que ela aprovasse.

- Ah – disse Anthony, tornando o som apenas audível para indicar que estava ouvindo.

- Nem pode a gente persuadir a criança a sair de seu autismo pelas maneiras comuns, pois a criança desaprova você assim como desaprova o resto do mundo. Mas se você a puser em condições de uma interrupção consciente…

- Interrupção do quê?

- É uma técnica mediante a qual, na realidade, o cérebro como que se divorcia do corpo e pode desempenhar suas funções sem se referir ao corpo. É uma técnica um tanto sofisticada, criada em nosso laboratório; na verdade… – Fez uma pausa.

Gentilmente, Anthony perguntou:

- Foi você quem criou a técnica?

- Na verdade, sim – respondeu William, corando um pouco, mas visivelmente satisfeito. – Numa interrupção consciente, podemos suprir o corpo com determinadas fantasias e observar o cérebro por meio do eletroencefalografia. Podemos de imediato aprender mais a respeito do indivíduo autista, que tipo de impressão sensorial ele mais quer, e, de um modo geral, aprendemos mais a respeito do cérebro.

- Ah – disse Anthony, e desta feita foi um ah de verdade. – E tudo isto que vocês aprenderam a respeito de cérebros vocês não podem adaptar ao trabalho de um computador?

- Não – disse William. – De forma alguma. Já disse isso a Dmitri. Nada sei sobre computadores e ainda não sei o bastante a respeito do cérebro.

- Se eu lhe ensinar a respeito dos computadores e lhe disser detalhadamente do que é que eles necessitam, não daria?

- Acho que não. Seria…

- Irmão – disse Anthony, tentando dar uma entonação que impressionasse à palavra. – Você me deve alguma coisa. Faça, por favor, um esforço sincero para dar alguma atenção a nosso problema. Seja lá o que sabe sobre o cérebro, por favor, adapte isso aos nossos computadores.

William se mexeu, pouco à vontade, dizendo:

- Entendo seu ponto de vista. Tentarei. Com toda a sinceridade, tentarei.

 

 

6.

 

William tinha tentado e, como Anthony predissera, os dois tinham sido deixados a trabalhar juntos. De início encontravam-se com outras pessoas, e William tentara usar o efeito de choque do aviso de que eram irmãos, visto que não adiantava querer negar. A certa altura, todavia, pararam, e sobreveio uma útil não-interferência. Quando William se aproximava de Anthony, ou quando Anthony se aproximava de William, quem mais estivesse presente silenciosamente batia em retirada.

Acabaram se acostumando um ao outro num certo sentido e às vezes se falavam como se não houvesse semelhança alguma entre eles, e nenhuma memória comum da infância.

Anthony explicou os requisitos do computador em linguagem simples, razoavelmente não técnica, e William, depois de muito matutar, explicou como é que, a seu ver, deveria um computador funcionar, mais ou menos, à guisa de um cérebro.

Anthony disse:

- Será possível?

- Não sei. Não estou ansioso por tentar. Poderá não funcionar, assim como poderá.

- Teríamos de falar com Dmitri Grandão.

- Primeiro conversaremos nós dois mesmos e decidiremos o que fazer. Iremos a ele com uma proposição oriunda de nós dois, e a mais razoável possível. Ou, até, poderemos não ir a ele.

Anthony hesitou:

- Nós dois falarmos com ele?

Delicadamente, William se expressou:

- Você é meu porta-voz. Não há razão para irmos juntos.

- Obrigado, William. Se isto der em alguma coisa, dividirei os louros com você.

- Quanto a isso, não me preocupo. Se isto der em alguma coisa, creio que eu seria o único a poder fazer o trabalho – falou William.

Debateram a questão durante quatro ou cinco encontros e, não fosse Anthony seu parente, não houvesse entre eles aquela situação emocional desagradável, indubitavelmente William se orgulharia do seu jovem irmão, por sua rápida compreensão de um campo que lhe era estranho.

Houve então demoradas reuniões com Dmitri Grandão. Na verdade, havia reuniões com todo mundo. Durante intermináveis dias, Anthony via aquela gente toda, e depois se reunia com William, em separado. E, um belo dia, após uma demorada “gravidez”, veio a autorização para o que foi denominado de Computador Mercúrio.

William voltou então a Nova Iorque com algum alívio. Não planejava ficar em Nova Iorque (dois meses antes, será que ele pensaria que isto seria possível?…) mas havia muito que fazer no Instituto Homológico.

Logicamente, mais conferências se fizeram necessárias para ele explicar a seu próprio grupo de laboratório que é que estava se passando e por que ele tinha de se retirar e como deveriam prosseguir com seus próprios projetos sem ele. Seguiu-se uma chegada a Dallas, desta vez bem mais complicada, com o essencial do equipamento e com dois jovens auxiliares para aquilo que era para ter sido uma chegada e retorno.

No sentido figurativo, nem mesmo William olhara para trás. Seu próprio laboratório e suas necessidades saíram de sua cabeça. Estava agora inteiramente comprometido com sua nova tarefa.

 

 

7.

 

Foi o pior período, para Anthony. O alívio durante a ausência de William não penetrara profundamente e começou a nervosa agonia de se perguntar se, talvez, esperança contra esperança, ele poderia não retornar. Quem sabe ele escolhesse enviar um representante, alguma outra pessoa? Alguma outra pessoa, com rosto diferente, de forma que Anthony não precisasse se sentir como a metade de um monstro com duas costas e quatro pernas?…

Mas, era William. Anthony observara o avião de carga vir silenciosamente pelo ar, observara-o a descarregar o que transportara, à distância. Mas, mesmo à distância, acabou vendo William.

Era ele, não havia dúvida. E Anthony se retirou.

Depois do almoço, foi falar com Dmitri.

- Garanto-lhe que não é preciso que eu fique, Dmitri. Estudamos os detalhes e uma outra pessoa poderia assumir a tarefa.

- Não, não – disse Dmitri. – Em primeiro lugar, a idéia foi sua. Deve ir até o fim. Não há razão para dividir as honras desnecessariamente.

Anthony pensou: ninguém mais quererá assumir o risco. E há ainda a possibilidade de um fracasso. Bem que eu deveria ter pensado nisto. No fundo ele tinha pensado, mas disse, impassível:

- Você compreende que não posso trabalhar com William.

- Mas, por que não? – Dmitri fingiu surpresa. – Vocês dois até aqui trabalharam tão bem, juntos!

- Estive me forçando a isto, Dmitri, e não agüentarei mais. Ou será que você não percebe como a coisa parece?

- Meu bom amigo! Você está exagerando. Lógico que as pessoas ficam espantadas, ao verem vocês dois juntos. Afinal de contas, são seres humanos. Mas acabarão se acostumando. Eu também me acostumei!

Seu gordo mentiroso, acostumou-se coisíssima nenhuma, pensou Anthony. E disse:

- Mas eu não me acostumei.

- Você não está encarando a coisa de maneira correta. Os pais de vocês eram… diferentes… mas, afinal de contas, o que eles fizeram não foi ilegal. Foi só esquisito, somente isso. Não é culpa sua nem de William. Nenhum dos dois pode ser censurado por causa disto.

- Mas estamos marcados – falou Anthony, fazendo um rápido gesto apontando para seu próprio rosto.

- Não estão marcados como você supõe. Vejo diferenças. Você tem aparência nitidamente mais jovem. Seu cabelo é mais ondulado. É só à primeira vista que parece haver grande semelhança. Veja, Anthony, vocês dispõem de todo o tempo de que necessitam, de toda a ajuda de que precisam, de todo o equipamento que quiserem usar. Tenho certeza de que tudo dará maravilhosamente certo. Pense na satisfação…

Anthony se deixou convencer, logicamente, e concordou em, pelo menos, ajudar William a instalar o equipamento. William, também, parecia estar certo de que tudo funcionaria maravilhosamente. Não tão freneticamente como Dmitri quereria, mas com uma certa calma.

- É apenas uma questão de conexões adequadas – disse – se bem que eu deva admitir que esse “apenas” é um bocado suculento. O final de tudo isto será conseguir impressões sensoriais num vídeo independente de forma que possamos exercer… bem, não posso usar a expressão controles manuais, não é mesmo? de forma que possamos exercer controle intelectual e termos pleno domínio da situação, se necessário.

- Dá para fazer isto – disse Anthony.

- Então, vamos em frente… Veja, precisarei pelo menos de uma semana para fazer as conexões e para ter certeza de que as instruções…

- A programação – corrigiu Anthony.

- Bem, isto cabe a você, de forma que usarei sua terminologia. Eu e meus assistentes programaremos o Computador Mercúrio, mas não à maneira de vocês.

- Espero que não. Quisemos um homólogo justamente porque queríamos estabelecer um programa muito mais sutil do que qualquer coisa que um simples telemetrista poderia fazer. – Não tentou ocultar a ironia contra si mesmo que havia em suas próprias palavras.

William não reagiu; aceitou as palavras. E disse:

- Vamos então começar. Façamos o robô caminhar.

 

 

8.

 

Uma semana depois, o robô caminhava no Arizona, a quase dois mil quilômetros de distância. Caminhava rigidamente, às vezes caía, às vezes batia estrondosamente seu tornozelo contra uma obstrução, às vezes mexia só um dos pés e acabava tomando uma surpreendente nova direção.

- É um bebê aprendendo a andar – comentou William.

De vez em quando Dmitri vinha, para saber dos progressos, dizendo:

- Ê notável!

Anthony não pensava assim. Passaram-se semanas, depois meses. Progressivamente, o robô fazia cada vez mais, à medida que o Computador Mercúrio recebia, progressivamente, uma programação mais complexa. (William tinha a tendência de se referir ao Computador Mercúrio como a um cérebro, mas Anthony não o permitiria.) E tudo que havia acontecido não era ainda suficientemente bom.

- Não é suficientemente bom, William – disse ele, por fim. Desde a noite anterior estava sem dormir.

Friamente William se manifestou:

- Isto não é estranho? Eu estava para dizer que pensei que estávamos derrotados.

Com dificuldades, Anthony se conteve. O esforço de trabalhar com William e de observar a trapalhada com o robô era mais do que podia suportar.

- Vou me demitir, William. Vou deixar o empreendimento todo. Lamento… Não é por sua causa.

- Mas é por mim, sim, Anthony.

- Não é por sua causa só, William. É uma falha: não chegaremos aonde queríamos. Você vê como o robô é desajeitado, mesmo ainda na Terra, só uns dois mil quilômetros daqui, com o sinal para se mexer vindo apenas numa minúscula fração de segundo por vez. Em Mercúrio, haverá minutos de demora, minutos que o Computador Mercúrio terá de permitir. É loucura pensar que isto funcionará.

William disse:

- Não se demita, Anthony. Agora você não pode se demitir. Sugiro que deixemos o robô ser enviado a Mercúrio. Estou convicto de que ele está pronto.

Anthony riu estrepitosamente, insultantemente.

- Você está maluco, William.

- Não estou. Parece que você pensa que em Mercúrio será mais difícil, mas não será. É na Terra que é mais difícil. Este robô está planejado para um terço da gravidade normal da Terra e está trabalhando em gravidade total, no Arizona. Está planejado para 400°C e está só nos 30°C. Foi planejado para o vácuo e está trabalhando numa força atmosférica.

- Aquele robô pode compensar a diferença.

- Suponho que a estrutura de metal possa, mas… e o Computador, aqui debaixo de nossos narizes? Não trabalha bem com um robô que esteja num ambiente que não aquele para o qual foi concebido… Veja, Anthony, se você quiser um computador que seja tão complexo quanto um cérebro, você tem de admitir idiossincrasias… Olhe, vamos fazer um acordo. Vai levar ainda uns seis meses para enviarmos o robô a Mercúrio. Você leva o projeto avante enquanto eu tiro umas férias de uns seis meses durante este período. Você ficará livre de mim.

- Quem cuidará do Computador Mercúrio?

- Agora você já entende como ele funciona, e haverá aqui dois de minha equipe para ajudar você.

Desafiante, Anthony sacudiu a cabeça.

- Não posso me responsabilizar pelo Computador e não assumirei a responsabilidade de sugerir o envio do robô a Mercúrio. Não vai dar certo.

- Estou convencido de que sim.

- Você não pode estar convencido. E a responsabilidade é minha. Eu é que receberei as críticas. Contra você não haverá nada.

Posteriormente, Anthony evocaria este momento crucial. William poderia deixá-lo ir embora. Anthony teria pedido demissão. Tudo estaria perdido.

Mas William disse:

- Não haverá nada contra mim? Veja, papai teve aquele sentimento, fez aquilo com mamãe. Tudo bem. Também lamento. Lamento tanto quanto qualquer outra pessoa, mas o que está feito, está feito, e disto resultou uma coisa curiosa. Quando falo de papai, ou seja, quando falo de seu pai, também, há um monte de casais que podem então dizer isto: dois irmãos, duas irmãs, um irmão e uma irmã. E, depois, quando falo mamãe, quero me referir à sua mãe, e há muitos casais que também podem falar assim. Mas não conheço nenhum outro par, nem ouvi falar de outro, que possa partilhar o mesmo pai e mãe.”

- Sei disso – aquiesceu Anthony, sombrio.

- Sim, mas encare a coisa de meu ponto de vista – apressou-se William a acrescentar. – Sou homólogo. Trabalho com padrões genéticos. Já pensou alguma vez em nossos padrões genéticos? Partilhamos os mesmos pais, o que quer dizer que nossos padrões genéticos se aproximam bastante, mais do que qualquer outro par em nosso planeta. Nossos rostos mostram isso.

- Também sei disso.

- De forma que, se este projeto der certo, e você for glorificado por causa dele, será nosso padrão genético que terá provado ser altamente útil para a humanidade, o que quer dizer também meu padrão genético… Não está vendo, Anthony? Partilho seus pais, seu rosto, seu padrão genético, e, por conseguinte, quer a sua desgraça. Ela é minha quase tanto quanto sua, e se qualquer crédito ou censura sobrevier para mim, será quase tanto seu quanto meu. Tenho de estar interessado em seu sucesso. Tenho para isto um motivo que ninguém mais na Terra tem, puramente egoísta, tão egoísta quanto pode ser o seu para comigo. Estou de seu lado, Anthony, porque você está muito perto de mim!

Durante um longo tempo eles se encararam e, pela primeira vez, Anthony o fez sem reparar no rosto de que ele partilhava.

William rompeu o silêncio:

- Vamos, então, pedir que enviem o robô a Mercúrio.

Anthony concordou. E depois que Dmitri aprovou o pedido, porque afinal de contas ele estava esperando por isso, Anthony passou a maior parte do dia imerso em profundos pensamentos.

Procurou então William e disse:

- Ouça! -  Houve uma longa pausa, que William não rompeu. Novamente Anthony disse: – Ouça!

Pacientemente, William esperava. Anthony disse:

- Na verdade, não há necessidade de que você se vá. Tenho certeza de que você não gostaria que ninguém mais, exceto você, dirigisse o Computador Mercúrio.

- Quer dizer que você pretende ir embora?

- Não, eu vou ficar, também – falou Anthony. William disse: – Não precisamos muito ver um ao outro. – Tudo isto tinha sido, para Anthony, como falar com um par de mãos cerradas em torno de sua traquéia. Parecia agora que a pressão aumentava, mas a mais dura das afirmações estava ainda por vir.

- Não temos de nos evitar um ao outro. Não temos mesmo.

William sorriu, de maneira insegura. Quanto a Anthony, não sorriu de jeito nenhum, rapidamente, retirou-se.

 

 

9.

 

William ergueu os olhos do livro que estava lendo. Fazia pelo menos um mês que ele deixara de se surpreender, ainda que vagamente, quando Anthony entrava.

- Alguma coisa errada? – perguntou.

- Quem sabe lá? Estão se preparando para o pouso suave. O Computador Mercúrio está funcionando?

William sabia que Anthony conhecia perfeitamente a condição do Computador. Mesmo assim, disse:

- Amanhã de manhã, Anthony.

- E não há problemas?

- Nenhum.

- Então teremos de aguardar o pouso suave.

- Sim.

Anthony disse:

- Alguma coisa falhará.

- A ciência dos foguetes é um velho parceiro: nada sairá errado.

- Tanto trabalho desperdiçado.

- Ainda não foi desperdiçado. Nem será.

- Pode ser que você esteja certo – disse Anthony. Com as mãos bem enterradas em seus bolsos, afastou-se, detendo-se na porta, antes de abri-la. – Obrigado!

- Obrigado por quê, Anthony?

- Por me… confortar.

Anthony sorriu meio de esguelha, aliviado de uma maneira que suas emoções não demonstravam.

 

 

10.

 

Praticamente todo o pessoal do Projeto Mercúrio estava reunido, no momento crucial. Anthony, que não tinha tarefas a desempenhar, ficou bem ao fundo, com os olhos nos monitores. O robô tinha sido ativado e havia mensagens visuais sendo reenviadas.

Por fim elas apareceram como o equivalente visual da superfície de Mercúrio. E mostravam aquilo que presumivelmente era essa superfície: uma embaçada incandescência.

Sombras adejavam rapidamente pelo vídeo, provavelmente irregularidades na superfície. Só pelo que seus olhos viam, Anthony não era capaz de interpretar o que via, mas os técnicos junto aos controles, que estavam analisando os dados por métodos mais sutis do que os que dispunham a olho nu, pareciam calmos. Nenhuma das lampadazinhas vermelhas que denunciavam emergência estava acesa. Na verdade, Anthony prestava mais atenção aos principais observadores do que ao vídeo.

Ele deveria estar lá, junto ao Computador, com William e os outros. Só se uniria a eles quando o pouso suave estivesse feito. Ele estaria lá. Ele não poderia estar.

Mais rapidamente as sombras adejavam pelo vídeo. O robô estava descendo – rapidamente demais? Sim, sem dúvida, rápido demais!

Houve um último borrão e uma fixidez, um deslocamento de foco no qual o borrão ficou primeiro mais escuro; depois, mais esmaecido. Ouviu-se um som e deu para perceber alguns segundos antes de Anthony compreender o que significava aquele som:

- Conseguimos o pouso suave! Conseguimos o pouso suave!

Então, houve um murmúrio crescente e um sussurro de congratulações, até que nova mudança ocorreu no vídeo e o som de palavras e risos se deteve, como se tivesse colidido contra uma parede de silêncio.

Porque o vídeo mudara, mudara e ficara nítido. À brilhante, brilhante luz solar, chamejando em meio ao vídeo cuidadosamente seletivo em suas imagens, agora eles podiam ver um pedregulho claro, com brilho esbranquiçado de um lado, retinto, de outro. Moveu-se para a direita, depois voltou-se para a esquerda, como se um par de olhos olhasse para a esquerda, depois para a direita. No vídeo apareceu uma mão metálica, como se olhos estivessem olhando por meio delas.

Foi a voz de Anthony que gritou, finalmente:

- O Computador entrou em ação!

Ouviu suas próprias palavras como se tivessem sido gritadas por outrem e correu escadas abaixo e por um corredor, deixando o balbucio crescente de vozes atrás dele.

- William – gritou, irrompendo na sala do computador – está perfeito, está…

Mas a mão de William se soergueu.

- Psiu. Por favor. Não quero que nesta sala penetrem quaisquer sensações violentas, exceto as do computador.

- Quer dizer que podemos ser ouvidos? – cochichou Anthony.

- Pode ser que não, mas não sei. – Havia ali outro vídeo, menor. A cena que ele mostrava era diferente e cambiante; o robô se movia.

William disse:

- O robô está começando a perceber as coisas. Os primeiros passos têm de ser desgraciosos mesmo. Há um intervalo de sete minutos entre o estímulo e a resposta e é preciso levar isto em conta.

- Mas a verdade é que ele já está andando mais firme do que no Arizona. Não acha, William? Não acha? – Anthony apertava com a mão o ombro de William, sacudindo-o, sem seus olhos deixarem um minuto o vídeo.

William disse:

- Estou convencido disto, Anthony.

O Sol estava incandescente, num cálido contraste entre branco e preto: Sol branco contra um céu negro, solo movente pintalgado de branco com sombras negras. O brilhante gosto doce do Sol, exposto em cada centímetro quadrado de metal, contrastava com o aroma insinuante de morte, do outro lado.

Ergueu a mão e ficou a olhá-la, contando os dedos. Quente-quente-quente, virou-os, colocando cada dedo, um por um, à sombra dos outros, e o calor lentamente a se atenuar numa mudança tátil que o fazia sentir o limpo e confortável vácuo.

Se bem que não fosse um vácuo absoluto. Enrijeceu e ergueu ambos os braços sobre a cabeça, esticando-os, e os sensores em cada pulso sentiram os vapores, o fino e leve toque de estanho e chumbo se deslocando em meio ao enjôo que era Mercúrio.

O espesso sabor subiu de seus pés, os silicatos de cada variedade, marcados claramente pelo separar e juntar dos íons metálicos. Lentamente, ele moveu um pé em meio à poeira tostada, esmagada, e sentiu as diferenças como uma sinfonia delicada, não propriamente sem cadência.

E, sobretudo, o Sol. Olhou para ele, grande, gordo, brilhante e quente, e ouviu sua alegria. Observou a lenta ascensão das proeminências em torno do Sol e prestou atenção ao som de estalidos de cada uma, prestava atenção, outrossim, aos outros ruídos felizes em torno de seu amplo rosto. Quando ele obscureceu a luz difusa, o vermelho dos punhados de hidrogênio que se erguiam se mostrava em rajadas de maduro contrario, e o profundo contrabaixo das manchas em meio ao emudecido silvar das féculas fragmentadas, a se moverem, e o ocasional silvo de uma labareda e, o crepitar dos raios gama e das partículas cósmicas, e acima de tudo, em todas as direções, o suspiro da substância solar, sempre renovada, erguendo-se e contraindo-se para todo o sempre, num vento cósmico que o alcançava e o banhava gloriosamente.

Deu um pulo e ergueu-se lentamente no ar com uma liberdade que nunca sentira, e novamente deu um pulo, ao pousar, e correu, e saltou, e de novo correu, com um corpo que respondia perfeitamente a este mundo glorioso, a este paraíso em que finalmente se achava.

Um estranho, tão longe e tão perdido, finalmente no paraíso.

 

- Tudo em ordem – disse William.

- Mas que é que ele está fazendo? – gritou Anthony.

- Tudo em ordem. A programação está funcionando. Ele testou seus sentidos. Está fazendo várias observações visuais. Obscureceu o Sol e o estudou. Testou a atmosfera e a natureza química do solo. Tudo funciona.

- Mas por que está correndo?

- Acho que é idéia dele mesmo, Anthony. Se quiser programar um computador de maneira tão complicada como um cérebro o é, você tem de esperar que ele tenha idéias próprias.

- Correr? Pular? – Anthony voltou seu rosto, ansioso, para William. – Acabará se machucando. Assuma o controle do Computador, passe por cima dele. Faça-o parar.

Asperamente, William disse:

- Não, não farei isto. Vou me aproveitar do fato de ele poder se machucar. Não está percebendo? Ele está feliz. Estava na Terra, um mundo ao qual ele nunca se adaptaria. Agora, está em Mercúrio, com um corpo perfeitamente adaptado à sua ambiência, tão perfeitamente adaptado quanto cem cientistas o poderiam ter feito. Para ele, é o paraíso, deixe-o aproveitá-lo.

- Aproveitá-lo? Mas ele é um robô!

- Não estou falando do robô. Estou falando do cérebro, o cérebro que está vivo, aqui.

O Computador Mercúrio, encerrado em vidro, cuidadosa e delicadamente protegido, sua integridade preservada de maneira mais sutil, respirava e vivia.

- É Randall que está no paraíso – afirmou William. – Achou o mundo por amor do qual autisticamente fugiu deste nosso. Tem um mundo para o qual seu novo corpo está perfeitamente adequado em troca deste mundo ao qual seu velho corpo absolutamente não se ajustava.

Maravilhado, Anthony observava o vídeo.

- Parece estar se acalmando.

- Lógico – disse William – e desempenhará sua missão da melhor maneira possível, para sua alegria.

Anthony sorriu e disse:

- Quer dizer então que você e eu fizemos o que queríamos? Vamos até onde estão os demais e vamos deixá-los nos festejar, William?

- Juntos? – perguntou William.

- Juntos, irmão! – exclamou Anthony, saindo com ele, ombro a ombro.

Isaac Asimov
Publicado originalmente no livro Nós, Robôs, Hemus Editora





Vitória Involuntária

1 10 2008

A espaçonave vazava como uma peneira.

Estava destinada a isso. Era exatamente o que se desejava.

Ê claro que durante a viagem de Ganimedes a Júpiter ficou transbordante do mais sólido vácuo espacial. E já que não dispunha também de aquecimento, o vácuo manteve-se à sua temperatura normal, que é uma fração de grau acima do zero absoluto.

Isto estava também de acordo com os planos. Pequeninas coisas como a ausência de ar e calor não afetavam a ninguém naquela espaçonave.

Os primeiros resquícios da atmosfera de Júpiter começaram a penetrar na nave vários milhares de milhas acima da superfície do planeta. Constituía-se quase toda de hidrogênio, embora talvez uma cuidadosa análise revelasse também sinais de hélio. Os indicadores de pressão começaram a subir lentamente.

Esta subida acelerou-se à medida que a nave caía na órbita de Júpiter. Os mostradores, cada qual destinado a indicar pressões mais elevadas, moveram-se até alcançar as imediações de um milhão de atmosferas, onde os números perderam significado. A temperatura, registrada em pares termoelétricos, ergueu-se lenta e vacilante, firmando-se afinal em cerca de setenta graus centígrados abaixo de zero.

A nave movia-se lentamente em direção ao destino, abrindo caminho, pesada, pelo emaranhado de moléculas de gás tão unidas que o próprio hidrogênio era reduzido à densidade de um líquido. Vapor amoníaco, emanando dos vastíssimos oceanos daquele líquido, saturava a horrível atmosfera. O vento, que começara a soprar mil milhas acima, atingira um ponto que mal poderia ser classificado de furacão.

Era evidente, muito antes que a nave pousasse numa ilha bastante extensa do planeta, umas sete vezes o tamanho da Ásia, que Júpiter não era um mundo agradável.

Contudo, os três membros da tripulação acharam que sim. Estavam convictos disso. Mas acontece que não eram exatamente humanos. Nem exatamente habitantes de Júpiter.

Eram simplesmente robôs fabricados na Terra para a viagem a Júpiter.

ZZ Três falou:

- Parece um local desolado.

ZZ Dois, reunindo-se a ele, contemplou muito sério a paisagem varrida pelo vento e disse:

- Há estruturas a distância que parecem artificiais. Sugiro esperarmos que os habitantes nos procurem.

Do outro lado da cabina, ZZ Um ouviu, mas nada disse. Dos três fora o primeiro a ser construído, e era meio experimental. Falava menos, portanto, que seus dois companheiros.

A espera não foi longa. Uma nave aérea de estranho contorno sobrevoou a espaçonave terrestre, seguida de outras. Depois uma fila de veículos terrestres aproximou-se, tomou posição e despejou organismos. Com estes vinham diversos acessórios inanimados, que poderiam ser armas. Algumas eram sustentadas por um só jupiteriano, outras por diversos, e outras ainda moviam-se por si mesmas, contendo talvez tripulantes.

Isso os robôs ignoravam.

ZZ Três falou:

- Eles nos rodearam. O gesto de paz mais lógico seria sair da nave. Concordam?

Concordaram, e ZZ Um abriu a pesada porta, que não era dupla, nem particularmente vedada.

O aparecimento dos três foi sinal de agitação entre os jupiterianos. Movimentaram-se vários dos maiores acessórios inanimados, e ZZ Três sentiu que a temperatura subia no revestimento externo de seu corpo de berilo-irídio-bronze. Relanceando para ZZ Dois perguntou:

- Está sentindo? Creio que estão projetando energia de calor contra nós.

ZZ Dois manifestou surpresa.

- Por quê?

- Trata-se definitivamente de um raio calórico Veja!

Um dos raios desviou-se do alvo, por qualquer motivo incompreensível, e sua linha de radiação atravessou um riacho faiscante de amônia pura, que de imediato começou a ferver.

Três voltou-se para ZZ Um:

- Tome nota disso, ouviu?

- Claro. – A ele cabia o trabalho rotineiro de secretaria, e seu método de tomar notas era fazer uma adição mental ao apurado rolo da memória que existia no seu interior. Já fizera o registro horário de cada instrumento importante de bordo, durante a viagem para Júpiter. E acrescentou tranqüilamente: – Que razão atribuirei à reação? Os mestres humanos gostariam com certeza de saber.

- Nenhuma razão. Ou melhor – corrigindo-se -, nenhuma razão aparente. Registre que a temperatura máxima do raio era cerca de trinta graus centígrados.

Dois interrompeu-o:

- Tentamos nos comunicar?

- Seria perda de tempo – replicou Três. – Não pode haver mais que uns poucos jupiterianos a pai do código de rádio usado entre Júpiter e Ganimedes. Terão de chamar um deles, e quando chegar estabelecerá contato. Entretanto vamos observá-los. Não compreendo sua maneira de agir, digo francamente.

E a compreensão não chegou de imediato. A radiação catódica cessou, e outros instrumentos foram trazidos para a linha de frente e exibidos. Diversas cápsulas caíram aos pés dos robôs em observação, tombando rápida e pesadamente por causa da gravidade de Júpiter. Abrindo-se, derramaram um líquido azul, que formava poças e em seguida diminuía rapidamente, evaporando-se.

O terrível furacão dispersava os vapores, e os jupiterianos afastavam-se do seu caminho. Um deles, demasiado lento, contorceu-se com violência e em seguida ficou imóvel.

ZZ Dois inclinou-se, mergulhou um dedo na poça e observou o líquido gotejar.

- É oxigênio – concluiu.

- É oxigênio, sim – concordou Três. – Isto me parece cada vez mais estranho. Deve ser um sistema perigoso, pois diria que é venenoso para estas criaturas. Uma delas morreu!

Houve uma pausa e em seguida ZZ Um, cuja menor complexidade levava a uma Unha de reflexão mais direta, ponderou:

- É possível que estas estranhas criaturas estejam fazendo tentativas infantis de nos destruírem.

Dois, ao impacto da sugestão, respondeu:

- Creio que tem razão, Um!

Houve uma ligeira trégua nas atividades jupiterianas e então surgiu uma nova estrutura. Ostentava uma fina haste apontando para o céu encoberto pela impenetrável escuridão jupiteriana. Mantinha-se sob o impacto daquele vento incrível numa imobilidade que indicava excepcional vigor estrutural. Da extremidade partiu um estalido, seguido de um raio que iluminou até as profundezas da atmosfera mergulhada num fog cinzento.

Por um instante os robôs ficaram banhados numa pegajosa radiação. Pensativo, Três falou:

- Eletricidade em alta tensão! Uma força bastante respeitável. Um, creio que tem razão. Afinal, nossos chefes humanos disseram que estas criaturas procuram destruir toda a humanidade, e organismos que possuam tão louca malignidade, a ponto de abrigar pensamentos nocivos a um ser humano – sua voz estremeceu à idéia -, não teriam escrúpulos em destruir-nos.

- È uma vergonha possuir mente tão pervertida – disse ZZ Um. – Pobres sujeitos!

- É uma idéia muito triste – admitiu Dois. – Voltemos à nave. Já vimos o bastante por agora.

Foi o que fizeram, decididos a aguardar. Conforme observara ZZ Três, Júpiter era um grande planeta e poderia levar tempo até que um transporte jupiteriano trouxesse um especialista em códigos à nave. Contudo, paciência é o que não falta aos robôs.

Para ser exato, Júpiter rodou três vezes em torno do seu eixo, segundo o cronômetro, antes que o especialista chegasse. O nascer e pôr do sol não alteravam de maneira alguma a profunda escuridão nas profundezas daquelas três mil milhas de denso gás-líquido, de modo que não se podia falar em dia e noite. Mas nem robôs nem jupiterianos enxergavam por meio de radiação visível, de modo que isso não tinha importância.

Naquele intervalo de trinta horas, os nativos persistiram no ataque com uma paciência e constância diante da qual o robô ZZ Um resolveu tomar inúmeras notas mentais. A nave foi atacada por uma força diferente de hora em hora e os robôs observaram atentamente cada uma delas, analisando as armas que reconheciam. Mas isso não acontecia com todas.

Os humanos, porém, haviam construído solidamente. A nave levara quinze anos para ser estruturada, assim como os robôs e suas partes essenciais, e o conjunto podia ser definido em duas palavras: força bruta. O ataque desgastava-se inutilmente, sem afetar a espaçonave ou os robôs.

- Creio que a atmosfera os prejudica – falou Três. – Não podem usar energia atômica, pois abririam um buraco naquela espessa camada e explodiriam.

- Não usaram também explosivos violentos, o que é ótimo – observou Dois. – Não nos afetariam, naturalmente, mas seríamos um tanto sacudidos.

- Explosivos violentos estão fora de cogitação. Não se pode ter um explosivo sem expansão de gases, e isto é impossível nesta atmosfera.

- É uma ótima atmosfera – murmurou Um. – Eu gosto dela.

O que era natural, uma vez que fora para ela construído. Os robôs ZZ eram os primeiros fabricados pela U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A. sem a mais leve aparência humana. Eram baixos e atarracados, com o centro de gravidade a menos de trinta centímetros do solo. Tinham seis pernas, curtas e vigorosas, desenhadas para erguer toneladas em gravidade duas vezes e meia maior que a normal da Terra. Seus reflexos tinham rapidez proporcional, para compensar a gravidade, e compunham-se de uma liga de berilo-irídio-bronze resistente a qualquer agente corrosivo conhecido e a qualquer agente destruidor – à exceção de um disruptor atômico de mil megatons – sob quaisquer condições.

Em outras palavras, eram indestrutíveis e tão vigorosos que passaram a ser os únicos a quem os roboticistas da corporação jamais tiveram a coragem de impor um apelido. Um brilhante técnico havia sugerido Sissy Um, Dois e Três, mas em voz baixa, e a sugestão não encontrara eco.

As últimas horas de espera foram passadas em discussão. Procuravam descrever a aparência dos jupiterianos. ZZ Um anotara que possuíam tentáculos e simetria radial, e nisso haviam ficado. Dois e Três fizeram tentativas, mas não conseguiram ajudá-lo.

- Não é possível descrever muito bem coisa alguma sem um padrão de referência – declarou Três, finalmente. – Estas criaturas não parecem com coisa alguma que eu conheça. Estão inteiramente por fora das trilhas do meu cérebro positrônico. É como tentar descrever um raio gama a um robô não equipado para a recepção de raios gama.

Naquele exato momento, a barragem atacante novamente cessou e os robôs voltaram a atenção para o exterior da nave.

Um grupo de jupiterianos adiantava-se de modo estranhamente desigual, mas nem a mais minuciosa observação poderia determinar seu método exato de locomoção. De que modo usavam os tentáculos era difícil saber. Às vezes deslizavam de maneira surpreendente, depois moviam-se a grande velocidade, talvez com a ajuda do vento, pois adiantavam-se nesse sentido.

Os robôs saíram ao encontro dos jupiterianos, que se detiveram a uns três metros de distância. Ambas as facções permaneceram silenciosas e imóveis.

ZZ Dois falou:

- Devem estar nos observando, mas não sei como. Algum de vocês nota órgãos fotossensíveis?

- Não sei – resmungou Três. – Eles não fazem sentido absolutamente.

Ouviu-se de repente um clique metálico entre o grupo jupiteriano e ZZ Um falou, encantado:

- É o código de rádio. Trouxeram o especialista em comunicações.

Era e tinham trazido mesmo. O complicado sistema de ponto-traço, elaborado penosamente durante vinte e cinco anos pelos jupiterianos e os terrestres de Ganimedes, transformara-se num meio bastante flexível de comunicação e estava afinal sendo posto em ação a curta distância.

Um jupiteriano permaneceu mais à frente, enquanto os outros recuavam. Era ele quem estava falando. Os sinais diziam:

- De onde vêm?

ZZ Três, o de mentalidade mais adiantada, assumiu naturalmente a liderança do grupo.

- Somos do satélite de Júpiter, Ganimedes. O jupiteriano continuou:

- Que querem?

- Informação. Viemos estudar o seu mundo e trazer as nossas descobertas. Se pudéssemos obter a sua cooperação…

Os sinais do jupiteriano interromperam-no:

- Vocês precisam ser destruídos!

ZZ Três fez uma pausa e num aparte aos companheiros disse, pensativo:

- Exatamente a atitude que nossos mestres terrenos previram. São muito estranhos.

Voltando aos sinais perguntou simplesmente:

- Por quê?

O jupiteriano considerava, evidentemente, certas perguntas demasiado tolas para merecerem resposta. Disse apenas:

- Se partirem dentro de um só período de evolução nós os pouparemos, até o dia em que sairmos do nosso mundo para destruir os vermes não-jupiterianos de Ganimedes.

- Gostaria de observar que nós, de Ganimedes e dos planetas interiores…

O jupiteriano interrompeu-o:

- Nossa astronomia conhece o Sol e nossos quatro satélites. Não existem planetas interiores.

Três não insistiu, recomeçando:

- Nós, de Ganimedes, não temos intenções belicosas com relação a Júpiter. Estamos dispostos a oferecer a nossa amizade. Durante vinte e cinco anos seu povo comunicou-se livremente com os seres humanos de Ganimedes. Haverá razão para uma guerra súbita com os humanos?

- Durante vinte e cinco anos supomos que os habitantes de Ganimedes eram jupiterianos – foi a resposta glacial. – Quando descobrimos que não e que vínhamos tratando com animais inferiores ao nosso nível de inteligência, fomos obrigados a tomar medidas para resgatar nossa honra.

E terminou, com lentidão e energia:

- Nós, de Júpiter, não suportaremos a existência de vermes!

O jupiteriano recuou, de certo modo, fazendo um esforço contra o vento, e a entrevista evidentemente ficou encerrada.

Os robôs recolheram-se à nave.

- As coisas estão más, não é? – disse ZZ Dois, que prosseguiu, pensativo: – Foi como disseram os mestres humanos. Eles possuem um complexo de superioridade extraordinariamente desenvolvido, combinado a uma extrema intolerância a qualquer pessoa ou coisa que perturbe esse complexo.

- A intolerância é conseqüência natural do complexo – observou Três. – O problema é que a intolerância deles é agressiva. Têm armas – e sua ciência é bastante avançada.

- Não surpreende que tenhamos sido especificamente instruídos para não atender às ordens jupiterianas – exclamou ZZ Um. – São seres horríveis, intoleráveis, pseudo-superiores! – E acrescentou enfaticamente, com lealdade e fé robóticas: – Mestre humano algum seria assim!

- Isso, embora verdadeiro, não tem relevância – falou Três. – O que importa é que os mestres humanos estão em terrível perigo. Este mundo é gigantesco e os jupiterianos são cem vezes maiores em número e recursos, talvez mais, do que todos os homens do Império Terrestre. Se forem capazes de fabricar um campo de força e usá-lo no casco de uma espaçonave – como os nossos mestres humanos já fizeram – dominarão à vontade todo o sistema. A questão é saber até que ponto avançaram nesse sentido, quais as outras armas que possuem, que preparativos estão fazendo etc. Regressar com esse informe é a nossa função, naturalmente, de modo que é melhor decidirmos qual será nosso próximo passo.

- Isto talvez seja difícil – replicou Dois. – Os jupiterianos não nos ajudarão. – O que, tendo-se em vista as circunstâncias, era dizer muito pouco.

- Parece-me que só temos que esperar. Tentaram destruir-nos durante trinta horas e não conseguiram. Fizeram o possível, com certeza. Um complexo de superioridade envolve sempre a eterna necessidade de salvar as aparências, e o ultimato que nos dirigiram o prova neste caso. Jamais nos permitiriam partir se pudessem destruir-nos. Mas se não partimos fingirão, com certeza, que estão dispostos, por motivos que só eles conhecem, a nos permitir ficar.

E mais uma vez esperaram. Passou-se o dia. A barragem bélica não voltou a funcionar. Os robôs não se retiraram. A ameaça revelara-se inútil. De novo os robôs se defrontaram com o especialista em código de rádio.

Se os modelos ZZ houvessem sido equipados com senso de humor estariam se divertindo imensamente.

Como isso não acontecera, sentiam apenas uma solene satisfação.

O jupiteriano falou:

- Decidimos permitir que permaneçam por um curto período, a fim de verificar pessoalmente o nosso poderio. Regressarão a Ganimedes para informar aos outros vermes seus semelhantes de seu desastroso fim, dentro de uma revolução solar.

ZZ Um anotou mentalmente que uma revolução jupiteriana durava doze anos terrestres. Três respondeu tranqüilamente:

- Obrigado. Podemos acompanhá-los à cidade mais próxima? Há muita coisa que gostaríamos de aprender. – E acrescentou: – Nossa nave não será tocada, naturalmente.

Disse isso em tom de pedido, e não de ameaça, pois nenhum modelo ZZ era belicoso. Toda capacidade mesmo para a mais leve irritação fora cuidadosamente banida de sua construção. Com robôs tremendamente potentes, como os ZZ, um bom humor inalterável era essencial para a segurança nos amos de teste na Terra.

- Não estamos interessados em sua mísera nave – replicou o jupiteriano. – Nenhum de nós se contaminará aproximando-se dela. Podem acompanhar-nos, mas não devem de modo algum chegar a menos de três metros de qualquer jupiteriano. Serão instantaneamente destruídos.

- Convencidos, hem? – observou Dois, num sussurro bem-humorado, enquanto lutavam contra o vento.

A cidade era um porto às margens de um incrível lago de amônia. O vento soprava furioso e ondas espumantes saltavam na superfície líquida em louca velocidade, sublinhada pela gravidade. O porto não era vasto nem imponente e parecia bastante óbvio que a maior parte das construções era subterrânea.

- Qual a população deste local? – perguntou Três.

- É uma pequena cidade de dez milhões de habitantes – replicou o jupiteriano.

- Compreendo. Anote isso, Um.

ZZ Um anotou mecanicamente e voltou-se de novo para o lago, que estivera contemplando, fascinado. Tocando o ombro de Três, perguntou:

- Acha que existem peixes aí?

- Que importa?

- Acho que devemos saber. Os mestres humanos ordenaram que descobríssemos o máximo possível. – Sendo o mais simples dos robôs, aceitava as ordens de maneira mais literal.

Dois interveio:

- Um pode investigar, se quiser. Não há mal em que o garoto se divirta um pouco.

- Está bem. Não há objeção, se não perder tempo. Não viemos procurar peixes, mas… pode ir, Um.

ZZ Um partiu muito animado, descendo rapidamente à praia e mergulhando com espalhafato na amônia. Os jupiterianos observaram-no atentamente. Não haviam compreendido nada da conversa anterior, é claro.

O especialista em código transmitiu:

- É evidente que seu companheiro resolveu abandonar a vida, desesperado com a nossa grandeza.

Três replicou, surpreendido:

- Nada disso. Quer investigar os organismos vivos, se é que existem, na amônia. – E acrescentou como quem pede desculpas: – Nosso amigo é às vezes muito curioso e menos inteligente do que nós, o que é uma pena. Compreendemos isso e procuramos fazer-lhe a vontade sempre que possível.

Houve uma prolongada pausa e o jupiteriano observou:

- Ele se afogará.

Três respondeu tranqüilamente:

- Não há perigo. Nós não nos afogamos. Podemos entrar na cidade assim que ele voltar?

Naquele momento produziu-se no lago um jato de líquido de várias centenas de metros de altura. Projetando-se loucamente para cima, caiu transformado em vapor, que foi soprado pelo vento. Outro jato, mais outro. Depois uma espuma branca formou-se, deixando uma esteira até a margem e desaparecendo gradualmente.

Os dois robôs observaram surpreendidos o fenômeno e a absoluta imobilidade dos jupiterianos indicava que também eles observavam.

Então a cabeça do ZZ Um emergiu e aproximou-se lentamente da margem. Mas algo o seguia! Um ser de dimensões gigantescas, que parecia ser todo constituído de presas, garras e espinhas. Viram então que não o acompanhava por livre e espontânea vontade, mas estava sendo arrastado para a praia. Seu corpo apresentava uma significativa imobilidade.

Aproximando-se timidamente, ZZ Um apossou-se da comunicação, transmitindo uma agitada mensagem ao jupiteriano:

- Lamento muito o que aconteceu, mas esta coisa atacou-me. Eu estava apenas tomando notas. Espero que não seja uma criatura de muito valor.

A resposta não veio de imediato, pois quando o monstro apareceu houve uma louca correria nas fileiras jupiterianas. Quando estas se reconstituíram lentamente e uma cautelosa observação provou que a criatura estava de fato morta, a ordem restabeleceu-se. Alguns mais ousados tocavam o corpo, curiosos.

ZZ Três disse humildemente:

- Espero que perdoe nosso amigo. Às vezes ele se mostra desajeitado. Não temos nenhuma intenção absolutamente de fazer mal a qualquer criatura de Júpiter.

- Ele me atacou – explicou Um. – Mordeu-me sem provocação. Veja! – e exibiu uma presa de sessenta centímetros de comprimento, terminando numa ponta serrilhada. – Quebrou-a no meu ombro e quase deixou um arranhão. Só lhe dei um safanão para afastá-lo… e ele morreu. Sinto muito!

O jupiteriano falou finalmente, e o código parecia um gaguejo.

- É uma criatura selvagem, raramente encontrada tão junto à margem, mas o lago é profundo aqui.

Ansioso, Três falou:

- Se puderem utilizá-lo para alimentação teremos o maior prazer…

- Não. Podemos conseguir comida sem a ajuda de verm… sem a ajuda de outrem. Comam-no vocês mesmos.

ZZ Um ergueu então o ser e atirou-o ao mar com leve movimento de braço. Três falou calmamente:

- Obrigado por sua bondosa oferta, mas não precisamos de alimento. Não comemos, naturalmente.

Escoltados por cerca de duzentos jupiterianos armados, os robôs passaram por uma série de rampas, penetrando na cidade subterrânea. Se na superfície ela parecia pequena e sem importância, sob a terra assumia a aparência de uma vasta megalópole.

Os robôs foram conduzidos a carros acionados por controle remoto – pois nenhum jupiteriano que se respeitasse arriscaria sua superioridade colocando-se no mesmo veículo que os vermes – e transportados a tremenda velocidade para o centro da cidade. Viram o bastante para calcular que ela teria uns cinqüenta quilômetros de extensão e mergulhava pelo menos uns oito quilômetros na crosta de Júpiter.

ZZ Dois não parecia muito feliz ao dizer:

- Se isto é uma amostra do progresso jupiteriano, nosso relatório aos mestres humanos não será muito auspicioso. Afinal, pousamos a esmo na superfície do planeta, com uma chance contra mil de nos encontrarmos nas imediações de uma zona populosa. Segundo o especialista, isto é uma cidadezinha.

- Dez milhões de jupiterianos – disse Três, distraído. – O total da população deve orçar pelos trilhões, o que é bastante, mesmo para Júpiter. Devem ter uma civilização completamente urbana, o que significa que seu desenvolvimento científico será tremendo. Se tiverem campos de força…

Três não possuía pescoço, pois, no interesse do vigor das cabeças, os modelos ZZ giravam firmemente o torso, com os delicados cérebros positrônicos protegidos por três diferentes camadas de liga de irídio, com dois centímetros e meio de espessura. Mas se  tivesse a teria meneado tristemente.

Haviam parado num espaço livre. Ao redor viam-se avenidas e estruturas fervilhantes de jupiterianos, tão curiosos como qualquer terrestre em circunstâncias similares.

O especialista em código aproximou-se.

- Chegou a hora de retirar-me até o próximo período de atividade. Chegamos ao cúmulo de providenciar alojamento para vocês, com grande incômodo para nós, pois a estrutura precisará ser destruída e reconstruída mais tarde. Contudo, poderão dormir por algum tempo.

ZZ Três agitou um braço num gesto deprecatório e transmitiu:

- Agradecemos, mas não precisam se incomodar. Não pretendemos ficar aqui. Se quiserem dormir e descansar, não façam cerimônia. Esperaremos por vocês. – E acrescentou tranqüilamente: – Nós não dormimos.

O jupiteriano não respondeu, embora, caso tivesse rosto, fosse interessante observar-lhe a expressão. Retirou-se e os robôs permaneceram no carro, com uma escolta de jupiterianos bem armados e substituídos com freqüência.

Horas depois, as fileiras dos guardas abriram-se para deixar passar o especialista em código. Vinha acompanhado de outros jupiterianos, a quem apresentou.

- Trago dois oficiais do governo central, que graciosamente consentiram em falar-lhes.

Um dos oficiais evidentemente conhecia o código, pois seu clique interrompeu asperamente o do especialista. Dirigindo-se aos robôs falou:

- Vermes! Saiam do carro para que eu possa vê-los.

Os robôs obedeceram com a maior boa vontade. Enquanto Três e Dois saltavam por sobre a borda, ZZ Um atravessou a esquerda do veículo. A palavra atravessou foi usada corretamente, pois uma vez que não acionou o mecanismo para baixar a parede lateral, por onde se saía, carregou com aquele lado e mais duas rodas e um eixo. O carro desmoronou-se e ZZ Um contemplou as ruínas, num silêncio embaraçado.

Finalmente disse, em voz baixa:

- Lamento muito. Espero que o carro não seja muito valioso.

ZZ Dois acrescentou, pedindo desculpas:

- Nosso companheiro é meio desajeitado às vezes. Desculpem-no, por favor. – E fez uma leve tentativa para reconstituir o carro.

ZZ Um fez outro esforço para desculpar-se.

- O material do carro era pouco resistente, estão vendo? – E ergueu um pedaço de plástico duro como metal, de sete centímetros de espessura. Exercendo pressão com ambas as mãos, facilmente quebrou-o ao meio. – Eu devia ter tido mais cuidado – confessou.

O oficial do governo jupiteriano falou em tom um pouco menos áspero:

- O carro teria que ser mesmo destruído, depois de poluído por sua presença. – E, após um silêncio: – Criaturas! Nós, jupiterianos, não sentimos curiosidade com respeito aos animais inferiores, mas nossos cientistas procuram fatos.

- Concordamos plenamente – replicou Três, bem-humorado. – Pensamos da mesma maneira.

O jupiteriano ignorou-o.

- Vocês aparentemente não dispõem de órgão sensível à massa. Como percebem os objetos distantes?

Três pareceu interessado.

- Quer dizer que vocês são diretamente sensíveis à massa?

- Não estou aqui para responder às suas perguntas – suas impudentes perguntas – a nosso respeito.

- Suponho então que objetos de pequena massa específica seriam transparentes para você, mesmo na ausência de radiação. – E voltando-se para Dois:

- É assim que eles vêem. Sua atmosfera é tão transparente para eles como o espaço.

Os cliques do jupiteriano recomeçaram.

- Responda imediatamente à minha pergunta, senão perderei a paciência e mandarei destruí-lo.

Três respondeu logo:

- Somos sensíveis à energia, jupiteriano. Podemos ajustar-nos à vontade a toda escala eletromagnética. No momento, nossa visão a longa distância é devida à transmissão de ondas de rádio por nós mesmos emitidas, e de perto vemos por meio de… – calou-se, voltando-se para Dois: – Não existe nenhum código para o raio gama, existe?

- Não que eu saiba – respondeu Dois. Três prosseguiu, voltando-se para o jupiteriano:

- De perto vemos por meio de outra radiação, para a qual não temos código.

- De que se compõe seu corpo? – indagou o jupiteriano.

Dois murmurou:

- Ele está perguntando isso provavelmente porque sua sensibilidade à massa não pode penetrar a epiderme. Alta densidade, compreende? Devemos dizer a ele?

Três respondeu, hesitante:

- Nossos mestres humanos não recomendaram particularmente que guardássemos nenhum segredo. – Em código de rádio, disse ao jupiteriano: – Somos constituídos principalmente de irídio. E mais cobre, latão, um pouco de berilo e um punhado de outras substâncias.

Os jupiterianos recuaram e pelo obscuro contorcer de diversas porções de seus corpos indescritíveis davam a impressão de estar imersos em animada conversa, embora não emitissem som algum.

Finalmente o oficial regressou:

- Seres de Ganimedes! Ficou decidido que lhes mostraremos algumas de nossas fábricas, exibindo assim uma fração de nossas grandes realizações. Em seguida permitiremos que regressem, a fim de espalharem o desespero entre os outros verm… os outros seres do mundo exterior.

Três disse para Dois:

- Observe o efeito de sua psicologia. Têm necessidade de insistir em sua superioridade. É também uma questão de salvar as aparências. – E em código: – Agradecemos a oportunidade.

Mas a operação foi eficiente, conforme os robôs logo perceberam. A demonstração transformou-se numa excursão, a excursão numa “Grande Exibição”. Os jupiterianos exibiram tudo, explicaram tudo, responderam animadamente a todas as perguntas e ZZ Um tomou centenas de notas desesperadoras.

O potencial bélico daquela única cidade sem importância era várias vezes maior que o de Ganimedes inteiro. Dez cidades semelhantes produziriam mais do que todo o Império Terrestre. Dez outras não seriam sequer um pequeno fragmento de toda a força de que Júpiter dispunha.

Três sentiu uma forte cotovelada nas costas.

- O que foi? – perguntou, voltando-se. Muito sério, Um respondeu:

- Se tiverem campos de força, os mestres humanos estão perdidos, não estão?

- Temo que sim. Por que pergunta?

- Porque os jupiterianos não nos estão mostrando o lado direito desta fábrica. É possível que os campos de força sejam fabricados ali. Eles guardariam segredo. É melhor descobrirmos. Não há nada mais importante do que isso.

Três olhou sombrio para Um.

- Talvez tenha razão. Não adianta ignorar coisa alguma.

Encontravam-se numa imensa siderúrgica, observando lingotes de trezentos metros de uma liga de silicone-aço, resistente à amônia, sendo fabricados à razão de vinte por segundo. Três perguntou baixinho:

- Que contém aquela ala?

O oficial do governo indagou aos encarregados da fábrica, que explicaram:

- É o departamento de altos fornos. Vários processos exigem tremendas temperaturas, que a vida não pode suportar, e todos devem ser indiretamente controlados.

Conduzindo-os a uma divisão de onde o calor se irradiava, indicou uma área pequena e redonda de material transparente. Fazia parte de uma fileira de outras iguais, através das quais as luzes vermelhas de brilhantes forjas eram vistas na pesada atmosfera.

ZZ Um olhou desconfiado para o jupiteriano e transmitiu:

- Poderíamos entrar e dar uma espiada? Estou muito interessado nisto.

- Você está sendo infantil, Um – falou Três. – Estão dizendo a verdade. Ora, dê uma espiada se quiser, mas não demore. Precisamos seguir adiante.

O jupiteriano avisou:

- Não faz idéia do calor desprendido. Morrerá.

- Oh, não – replicou Um, tranqüilo. – O calor não nos afeta.

Houve uma confabulação entre os jupiterianos e em seguida uma cena de confusão, enquanto a vida da fábrica era ativada para enfrentar aquela emergência. Telas de material isolante foram montadas e então abriu-se uma porta, que jamais fora aberta enquanto os fornos estavam em funcionamento, ZZ Um entrou e a porta fechou-se por trás dele. Os jupiterianos reuniram-se diante dos setores transparentes para observá-lo.

ZZ Um encaminhou-se para o forno mais próximo e deu pancadinhas no seu revestimento. Como era demasiado baixo para vê-lo confortavelmente, inclinou-o de modo que o metal líquido pingasse um pouco da borda. Observando-o, curioso, nele mergulhou a mão, agitando-a durante algum tempo para testar a consistência. Depois sacudiu as gotas de metal incandescente, enxugou o resto numa de suas seis coxas e percorreu lentamente a fileira de fornos. Por sinais transmitiu então o desejo de sair.

Os jupiterianos recuaram respeitável distância quando ele transpôs a porta e fizeram funcionar um jato de amônia que assobiou e ferveu até atingir novamente uma temperatura suportável.

Ignorando o banho de amônia, ZZ Um falou:

- Disseram a verdade. Não há campos de força.

Três começou:

- Sabe… – mas Um interrompeu-o, impaciente:

- Não adianta demorarmos aqui. Os mestres humanos nos orientaram no sentido de descobrirmos tudo e já o fizemos.

Voltando-se para o jupiteriano transmitiu, sem a menor hesitação:

- Ouça, os jupiterianos já conseguiram elaborar campos de força?

Franqueza era, naturalmente, uma das naturais conseqüências dos poderes mentais menos desenvolvidos de ZZ Um. Dois e Três sabiam disso, de modo que se abstiveram de manifestar desaprovação diante da pergunta.

O oficial jupiteriano abandonou um tanto sua atitude rígida, que dava a impressão de estar olhando estupidamente para a mão de Um, aquela que o robô mergulhara no metal líquido, e disse lentamente:

- Campos de força? Então é este o principal objeto de sua curiosidade?

- Sim – respondeu Um, enfático.

O jupiteriano readquiriu, súbito, parte de sua segurança, pois os sinais tornaram-se mais enérgicos. E falou quase gritando:

- Venha comigo, verme! Três disse para Dois:

- Voltamos a ser vermes… parece que há más notícias pela frente.

Dois concordou, sombrio.

Foram conduzidos, então, para o extremo da cidade, ao setor que na Terra seria chamado subúrbio, onde percorreram uma série de estruturas, que corresponderiam vagamente a uma universidade terrestre.

Não houve explicações, e mesmo estas não foram solicitadas. O oficial jupiteriano caminhava rápido e os robôs o acompanhavam com a sombria convicção de que o pior estava a pique de acontecer.

Foi ZZ Um quem parou diante de uma abertura na parede, depois que todos os outros haviam passado.

- Que é isto? – quis saber.

A sala estava equipada com bancos estreitos e baixos, diante dos quais jupiterianos manipulavam uma série de estranhos dispositivos, onde se destacavam fortes eletromagnetos com três centímetros de comprimento.

- Que é isto? – perguntou Um, novamente. O jupiteriano voltou-se, impaciente:

- É um laboratório de biologia para os estudantes. Não há nada aí que possa interessá-lo.

- Mas que estão fazendo?

- Estudando vida microscópica. Nunca viu um microscópio?

Três interveio, explicando:

- Claro que viu, mas não desse tipo. Nossos microscópios são destinados a órgãos sensíveis à energia e funcionam por refração de energia radiante. É evidente que estes funcionam baseados na expansão da massa. Bastante engenhoso.

- Poderia examinar um dos seus espécimes? – perguntou Um.

- Para quê? Não pode usar os nossos microscópios por causa de suas limitações sensoriais e, além disso, nos forçará a inutilizar todos os espécimes de que se aproximar sem uma razão válida.

- Mas não preciso de microscópio – explicou Um, surpreendido. – Posso ajustar-me facilmente à visão microscópica.

Dirigiu-se à mesa mais próxima, enquanto os estudantes agrupavam-se a um canto, para evitar contaminação. Afastando um microscópio, ZZ Um examinou cuidadosamente a lâmina. Recuando, intrigado, estudou outra… e mais outra… e mais outra.

Regressando, perguntou ao jupiteriano:

- Deviam estar vivos, não? Refiro-me àqueles vermezinhos.

- Certamente – replicou o jupiteriano.

- É estranho. Quando olho para eles, morrem! Três emitiu uma exclamação, voltando-se para os companheiros:

- Esquecemos nossa radiação de raios gama. Vamos sair daqui, Um, senão mataremos toda a vida microscópica desta sala.

E voltando-se para o jupiteriano:

- Nossa presença pode ser fatal a formas de vida menos resistentes. É melhor sairmos. Espero que os espécimes possam ser substituídos com facilidade. E já que falamos no assunto, seria conveniente afastarem-se de nós, pois nossa radiação pode ter efeitos desagradáveis. Até o momento sentiu-se bem? Espero.

O jupiteriano saiu da sala em orgulhoso silêncio, mas os robôs notaram que de então em diante duplicou a distância que vinham mantendo.

Ninguém disse mais nada até que os robôs se encontravam numa vasta sala, em cujo centro imensos lingotes de metal jaziam sem apoio no ar, ou antes, sem qualquer apoio visível – enfrentando a gravidade de Júpiter.

O oficial transmitiu:

- Este é um campo de força recentemente aperfeiçoado. Dentro daquela bolha há o vácuo, sustentando todo o peso da nossa atmosfera, mais a quantidade de metal equivalente a duas grandes espaçonaves. Que acham disso?

- Que as viagens espaciais tornaram-se uma possibilidade para vocês – replicou Três.

- Sem dúvida. Nenhum metal ou plástico tem força para sustentar nossa atmosfera contra o vácuo, mas um campo de força é capaz disso. E nossas espaçonaves serão bolhas de campos de força. Dentro de um ano estaremos produzindo centenas de milhares. Em seguida, elas atacarão Ganimedes para destruir as pseudo-inteligências que tentam disputar o nosso domínio universal.

- Os seres humanos de Ganimedes jamais tentaram… – começou Três, numa leve censura.

- Silêncio! – ordenou o jupiteriano. – Regressem agora e contem o que viram. Seus campos de força inferiores, como aquele com que está equipada a sua nave, não resistirão aos nossos, pois as menores naves daqui terão cem vezes o tamanho e a potência das terrestres.

- Então, nada mais temos a fazer e regressaremos com a informação – disse Três. – Se nos conduzirem à nave, nós nos despediremos logo. Por uma questão de registro, gostaria de esclarecer algo que não compreenderam. Os seres humanos de Ganimedes possuem campos de força, naturalmente, mas a nossa nave não é equipada com nenhum. Não precisamos disso.

O robô voltou-lhes as costas e fez sinal aos companheiros que o seguissem. Ficaram calados por algum tempo, depois ZZ Um murmurou, desanimado:

- Não podemos destruir a cidade?

- Não adianta – replicou Três. – Eles nos dominariam. É inútil. Dentro de uma década os mestres humanos serão liquidados. É impossível enfrentar Júpiter. São demasiado poderosos. Enquanto estiverem presos à superfície, os humanos estarão em segurança. Mas agora que já têm campos de força… Só nos resta levar a notícia. Construindo-se esconderijos, alguns sobreviverão por um curto período de tempo.

A cidade ficou para trás. Encontravam-se na planície descampada junto ao lago e a nave era apenas um pontinho escuro no horizonte quando o jupiteriano falou subitamente:

- Criaturas, estão dizendo que não dispõem de campo de força?

Três replicou, desinteressado:

- Não é preciso.

- Então, de que modo a nave resiste ao vácuo espacial sem explodir devido à pressão atmosférica interior? – E moveu um tentáculo, como se a um simples gesto indicasse que a atmosfera de Júpiter pesava sobre eles com a força de vinte milhões de quilos por centímetro quadrado.

- É muito simples – explicou Três. – Nossa nave não é vedada. As pressões se equiparam no interior e no exterior.

- Mesmo no espaço? Vácuo no interior da nave? É mentira!

- Pode examinar à vontade a espaçonave. Não possui campo de força e não é vedada. Mas não há nada de extraordinário nisto. Não respiramos. Obtemos energia diretamente da força atômica. A presença ou ausência de pressão pouco nos afeta e ficamos inteiramente à vontade no vácuo.

- Mas zero absoluto!

- Não tem importância. Regulamos o nosso próprio calor. Não nos interessam as temperaturas exteriores. – E, após uma pausa: – Podemos voltar sozinhos à nave. Adeus. Transmitiremos aos humanos de Ganimedes a sua mensagem – guerra total!

- Esperem! Voltarei – gritou o jupiteriano, dirigindo-se à cidade.

Os robôs fitaram-no espantados e aguardaram em silêncio.

Três horas depois ele regressou, ofegante de tanta pressa. Deteve-se a três metros dos robôs, como sempre, mas depois começou a avançar de estranha maneira, como se rastejasse. Só falou quando sua epiderme cinza e borrachenta quase os tocava. O código de rádio soou manso e respeitoso.

- Honrados senhores, comuniquei-me com o chefe do nosso governo central, que se encontra agora a par de todos os fatos, e asseguro-lhes que Júpiter só deseja a paz.

- Não compreendo – falou Três, atônito. O jupiteriano acrescentou logo:

- Estamos dispostos a voltar a comunicar-nos com Ganimedes, prometendo não nos aventurarmos no espaço. Nosso campo de força será utilizado somente na superfície de Júpiter.

- Mas…

- Nosso governo terá o maior prazer em receber quaisquer representantes de nossos veneráveis irmãos humanos que Ganimedes queira nos enviar. Se condescenderem agora em fazer um juramento de paz…

Um tentáculo escamoso adiantou-se para os robôs, e Três, espantado, apertou-o, imitado por Dois e Um.

Solene, o jupiteriano declarou:

- Reinará paz eterna entre Júpiter e Ganimedes.

A espaçonave, que vazava como uma peneira, encontrava-se novamente no cosmos. A pressão e a temperatura haviam voltado a zero e os robôs observavam o imenso globo que diminuía à distância – Júpiter.

- Eles são decididamente sinceros – falou ZZ Dois – e a total mudança de atitude é muito agradável, mas não a compreendo.

- Creio que os jupiterianos caíram em si ao compreender tudo o que havia de mau na idéia de prejudicar um mestre humano. O que é muito natural.

ZZ Três suspirou, dizendo:

- Ouçam, é uma questão de psicologia. Aqueles jupiterianos têm um tremendo complexo de superioridade e ao verem que não nos podiam destruir quiseram salvar as aparências. Toda aquela exibição e explicações eram uma forma de se gabarem, destinada a nos humilhar diante de sua força e superioridade.

- Compreendo tudo isso, mas… – interpôs ZZ Dois.

Três prosseguiu:

- Mas funcionou às avessas. Só conseguiram provar que éramos mais fortes, que não nos afogávamos, que não nos alimentávamos, nem dormíamos e que metal incandescente não nos afeta. Nossa simples presença é fatal à vida em Júpiter. Sua última cartada era o campo de força. Ao descobrir que não precisávamos absolutamente dele, que podíamos viver no vácuo ao zero absoluto, capitularam. – Calou-se e depois acrescentou filosoficamente: – Quando um complexo de superioridade como aquele se desmorona, desmorona para valer.

Os outros dois ponderaram um instante e Dois falou:

- Mas continuo a não compreender. Que importa a eles o que podemos ou não fazer? Somos apenas robôs. Não somos nós que lutamos.

- Ê isso exatamente, Dois – falou Três. – Só pensei nisso depois que saímos de Júpiter. Sabe que esquecemos involuntariamente de dizer que somos apenas robôs?

- Eles não perguntaram – disse Um.

- Exato. Julgaram que somos seres humanos e que todos os habitantes da Terra são iguais a nós!

E voltou a contemplar Júpiter, pensativo:

- Não é para admirar que tenham desistido!

Isaac Asimov
Publicado originalmente no livro Nós, Robôs, Hemus Editora





Robô AL-76 Extraviado

1 10 2008

Jonathan Quell franziu as sobrancelhas, preocupado, por trás dos óculos sem aro, ao transpor a porta marcada com gerente geral.

Depositando com força o papel dobrado sobre a escrivaninha, falou, incisivo:

- Veja isto, chefe!

Sam Tobe passou o charuto para o outro lado da boca e leu, esfregando o queixo precisado de barbear.

- Que inferno! Que é que eles querem dizer?

- Que expedimos cinco robôs al – explicou Quell, desnecessariamente.

- Expedimos seis – replicou Tobe.

- Claro, seis! Mas receberam apenas cinco. Remeteram os números seriados e o al-76 desapareceu.

Tobe fez cair a cadeira, ao erguer seu vigoroso corpo, e transpôs a porta como se deslizasse sobre rodinhas lubrificadas. Depois disso, cinco horas se passaram. A fábrica fora vasculhada desde as salas de montagem até as câmaras de vácuo. Cada um dos duzentos empregados havia passado por minucioso interrogatório, e Tobe, suando e descabelado, enviou uma mensagem de emergência à fábrica central, em Schenectady.

Ali houve uma súbita explosão de pânico. Pela primeira vez na história da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A., um robô fugira para o exterior. O mais sério não era a lei proibindo a presença de robôs na Terra, fora da fábrica licenciada da corporação. As leis podiam ser contornadas. O que melhor definia a situação era a declaração feita por um dos matemáticos do departamento de pesquisas.

- Aquele robô foi criado para dirigir um Disinto sobre a Lua. Seu cérebro positrônico estava equipado para o ambiente lunar, somente para o ambiente lunar. Na Terra receberá setenta e cinco zilhões de impressões sensoriais para as quais jamais foi preparado. Impossível prever suas reações. Impossível! – E com as costas da mão enxugou a testa coberta de suor.

Dentro de uma hora um estratoplano partiu para a fábrica de Virgínia. Levava instruções muito simples:

- Agarrem o robô! E depressa!

al-76 estava confuso! Na verdade, confusão era a única impressão retida por seu delicado cérebro positrônico. Tudo começou quando ele se viu naquele estranho ambiente. De que modo havia acontecido ele ignorava. Tudo se confundia.

O solo era coberto de verde, e estacas marrons erguiam-se a sua volta, encimadas por outra camada de verde. O céu era azul quando devia ser negro. O sol estava correto – redondo, amarelo e quente -, mas onde o solo poroso, onde os imensos anéis das crateras?

Via-se apenas o verde aqui embaixo e o azul lá no alto. Todos os sons que o rodeavam eram estranhos. Passara por água corrente que lhe chegava à cintura. Era azul, fria e molhada. E quando cruzava com pessoas, o que ocorria de vez em quando, elas não usavam trajes espaciais, como deveriam. E ao vê-lo, gritavam e saíam correndo.

Um homem apontara-lhe uma arma. O projétil assobiara pela sua cabeça. Depois o homem saíra correndo também.

Não tinha a menor idéia do tempo que passara vagueando a esmo antes de encontrar a cabana de Randolph Payne, a dois quilômetros da cidadezinha de Hannaford, no meio da floresta. Randolph Payne, chave de parafusos numa das mãos e cachimbo na outra, aspirador de pó em conserto entre os joelhos, estava agachado diante da porta.

Payne cantarolava baixinho, pois era um camarada bem-humorado quando se encontrava na sua cabana. Possuía em Hannaford uma moradia mais respeitável, ocupada principalmente por sua mulher, fato que ele sincera mas silenciosamente lamentava. Talvez por isso houvesse aquela sensação de alívio e liberdade quando conseguia fugir para a sua “casa de cachorro de luxo”, onde podia fumar em paz, enquanto se dedicava ao seu hobby, consertar utensílios domésticos.

Não era grande coisa como hobby, mas às vezes alguém surgia com um rádio, ou um despertador, e o dinheiro que então tilintava em seus bolsos era o único que não passava pelas mãos avarentas de sua mulher.

Aquele aspirador de pó representava seis dólares ganhos sem esforço.

Pensando nisso começou a cantar, ergueu a vista e suou frio. A canção engasgou-se na sua garganta, os olhos arregalaram-se, a transpiração tornou-se mais intensa. Tentou levantar-se, como preparativo para correr desabaladamente, mas as pernas não cooperaram.

Foi então que al-76 agachou-se ao seu lado e perguntou:

- Diga, por que todos os outros saíram correndo?

Payne sabia muito bem por que, mas o nó que se formara no seu diafragma não permitiu resposta. Tentou afastar-se ligeiramente do robô. al-76 prosseguiu, ressentido:

- Um deles até atirou em mim. Se acertasse dois centímetros abaixo teria arranhado o revestimento do meu ombro.

- D-devia estar 1-louco – gaguejou Payne.

- É possível. – O tom do robô tornou-se confidencial. – Ouça, que há de errado por aí?

Payne olhou rapidamente ao redor. Notara que o robô falava em tom extraordinariamente manso para alguém de aparência tão pesada e brutalmente metálica. Lembrou-se também de ter ouvido dizer que os robôs eram mentalmente incapazes de fazer mal ao ser humano e sentiu um certo alívio.

- Não há nada errado.

- Não? – replicou al-76, fitando-o acusadora-mente. – Você está todo errado. Onde deixou seu traje espacial?

- Não tenho nenhum.

- Então, por que não está morto? Isto surpreendeu Payne.

- Bem… não sei.

- Está vendo! – replicou o robô, triunfante. – Tudo está errado. Onde se encontra o Monte Copérnico? Onde a Estação Lunar 17? E onde está o meu Disinto? Quero trabalhar. – Parecia perturbado e tinha a voz trêmula ao prosseguir: – Venho andando há horas, tentando conseguir que alguém me diga onde está o meu Disinto, mas todos fogem. Agora é provável que esteja atrasadíssimo, e o chefe vai ficar furioso. Que bela situação!

Aos poucos Payne foi conseguindo estabelecer ordem no caos da sua mente. Perguntou então:

- Como é mesmo o seu nome?

- Meu nome de série é al-76.

- Al basta para mim. Se você está procurando a Estação Lunar 17, ela fica na Lua, sabia?

al-76 meneou gravemente a cabeça.

- Claro. Mas estive à sua procura…

- Fica na Lua. E nós não estamos na Lua.

Foi a vez do robô mostrar-se confuso. Observou Payne especulativamente e depois indagou devagar:

- Que quer dizer com essa história? Aqui não é a Lua? Claro que é a Lua. Se não fosse, o que seria então? Responda essa pergunta.

Payne emitiu um estranho ruído e respirou fundo. Agitando um dedo na frente do robô falou:

- Ouça! – Súbito, teve uma brilhante idéia e interrompeu-se com uma exclamação abafada.

al-76 fitou-o com ar de reprovação.

- Isso não é resposta. Creio que tenho direito a uma resposta bem-educada quando faço uma pergunta bem-educada.

Payne não o ouvia. Ponderava consigo mesmo. Claro como o dia. Aquele robô fora construído para ir à Lua, mas por qualquer motivo encontrava-se perdido na Terra. Era natural que estivesse confuso, já que seu cérebro positrônico fora construído exclusivamente para o ambiente lunar, e o meio terrestre lhe era totalmente estranho.

Se pudesse conservar ali o robô, até entrar em contato com a fábrica de Petersboro… Robôs valiam dinheiro. O mais barato custava cinqüenta mil dólares, haviam dito, e alguns chegavam a valer milhões. Imagine a recompensa!

“Oba, rapaz, imagine só a recompensai” E tudo para ele, até o último centavo. Nem um níquel furado para Mirandy. Não, que diabo!

Levantando-se, finalmente disse:

- Al, nós dois somos amigos! Amigões! Gosto de você como de um irmão. – E estendeu-lhe a mão: – Aperte!

O robô engoliu em seco, estendeu a pata de metal e apertou de leve a mão que lhe era oferecida. Não entendia muito bem.

- Isto significa que você me ensinará a chegar à Estação Lunar 17?

Payne ficou um tanto embaraçado.

- Não, não exatamente. Para falar a verdade, gosto tanto de você que quero que fique algum tempo aqui comigo.

- Ah, isso eu não posso. Preciso trabalhar. – E meneou a cabeça. – Gostaria de atrasar sua quota de trabalho hora após hora, minuto a minuto? Quero trabalhar. Preciso trabalhar.

Payne pensou consigo mesmo que gostos variam e respondeu:

- Está bem, vou lhe explicar uma coisa, porque estou vendo pela sua aparência que você é uma pessoa inteligente. Tenho ordens do seu chefe de seção para conservá-lo aqui por algum tempo, até que ele mande buscá-lo.

- Para quê? – indagou al-76, desconfiado.

- Não posso dizer. Segredo de Estado. – Payne rezou intimamente para que o robô engolisse aquilo. Sabia que alguns eram inteligentes, mas aquele parecia um modelo antiquado.

E enquanto Payne rezava, al-76 ponderava. Seu cérebro, ajustado para dirigir um Disinto na Lua, não dava o máximo rendimento quando entregue ao raciocínio abstrato. Ainda assim, desde que se perdera, al-76 descobrira que seus processos mentais mostravam-se cada vez mais estranhos. O meio ambiente exercia sobre ele alguma influência.

Sua pergunta seguinte foi quase astuta:

- Como se chama o meu chefe de setor?

Payne engoliu em seco e raciocinou rápido. Em tom magoado respondeu:

- Al, você me ofende com essa desconfiança. Não posso dizer o nome dele. As árvores têm ouvidos.

AL-76 examinou muito sério a árvore mais próxima e respondeu:

- Não têm.

- Eu sei. Quero dizer é que há espiões em toda parte.

- Espiões?

- Sim. Gente má, que quer destruir a Estação Lunar 17.

- Por quê?

- Porque são más. Querem destruir você também, e é por isso que precisa ficar aqui algum tempo, senão eles o encontrarão.

- Mas… mas preciso de um Disinto. Não posso me atrasar.

- Você terá o seu Disinto. Terá mesmo – prometeu Payne muito sério, amaldiçoando o cérebro unilateral do robô. – Mandarão um amanhã. Sim, amanhã.

Isso lhe daria muito tempo para entrar em contato com a fábrica e receber lindas pilhas de notas de cem dólares.

Mas al-76 tornou-se progressivamente obstinado à medida que a pressão daquele ambiente estranho agia sobre seu mecanismo pensante.

- Não, preciso de um Disinto agora. – Movimentando rigidamente as articulações, levantou-se. – Melhor continuar a procurá-lo.

Adiantando-se, Payne agarrou um ombro frio e gritou:

- Espere! Você precisa ficar aqui…

Algo emitiu um sinal na mente do robô. Todas as coisas estranhas que o rodeavam reuniram-se numa bolha, explodiram, deixando o cérebro a funcionar com um estranho aceleramento de eficiência. Voltando-se para Payne, disse:

- Sabe de uma coisa? Construirei um Disinto aqui mesmo. Depois poderei trabalhar.

Payne parecia duvidoso.

- Não creio que consiga. – E perguntou a si mesmo se valeria a pena fingir o contrário.

- Não se preocupe. – al-76 percebeu que os canais positrônicos do seu cérebro traçavam novos sinais e sentiu uma estranha exultação. – Vou construir um. – E olhando para a casa de cachorro, modelo de luxo, pertencente a Payne, acrescentou: – Você tem aqui todo o material necessário.

Randolph Payne relanceou para a confusão que enchia a cabana: rádios com as vísceras para fora, um refrigerador sem a parte de cima, motores enferrujados de automóvel, um fogão a gás imprestável, vários quilômetros de arame farpado e cerca de cinqüenta toneladas do mais heterogêneo amontoado de ferro velho, diante do qual todo negociante de sucata torceria o nariz.

- Tenho mesmo? – murmurou.

Duas horas depois, duas coisas aconteceram quase simultaneamente. Primeira: Sam Tobe, da filial de Petersboro da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A., recebeu uma chamada pelo videofone, de Randolph Payne, morador de Hannaford, com um recado relativo ao robô desaparecido. Tobe, com um rosnado profundo, interrompeu a ligação, ordenando que todos os outros chamados fossem encaminhados para o sexto vice-presidente encarregado dos controles.

Não se tratava de um verdadeiro absurdo. Na semana anterior, embora o Robô al-76 tivesse desaparecido completamente, havia afluído para ali uma enxurrada de notícias sobre o seu paradeiro, vindas de todos os recantos do país. Pelo menos catorze por dia – em geral de catorze diferentes Estados.

Tobe estava cansado da história, sem mencionar que já andava meio louco por outros motivos. Falava-se até em inquérito governamental, embora todos os roboticistas, físicos e matemáticos de renome do mundo inteiro jurassem que o robô era inofensivo.

Naquele estado de espírito não era surpreendente que levasse três horas para ponderar de que modo aquele Randolph Payne soubera que o robô estava programado para a estação Lunar 17 e que seu número de série era al-76. Estes detalhes não haviam sido divulgados pela companhia.

Ponderou durante um minuto e meio e depois entrou em ação.

Contudo, nas três horas que transcorreram entre a chamada e a ação, deu-se o segundo acontecimento. Randolph Payne, depois de interpretar corretamente a interrupção de sua chamada como descrença generalizada por parte do oficial que o ouvia na fábrica, regressou à sua cabana munido de uma objetiva.

Impossível discutir diante de uma foto e ele não seria idiota de mostrar-lhes o artigo genuíno antes de ver a cor do dinheiro.

al-76 continuava ocupado com seu trabalho. Metade do conteúdo da cabana encontrava-se espalhado pelos dois acres de terreno, e no meio daquilo via-se o robô agachado, mexendo com válvulas de rádio, pedaços de ferro, fiação de cobre e outras complicações, sem prestar a mínima atenção a Payne que, deitado de bruços, procurava ângulos para uma bonita foto.

Foi então que Lemuel Oliver Cooper fez a curva da estrada e imobilizou-se diante do espetáculo. A razão da sua presença ali era uma torradeira elétrica, que adquirira o irritante costume de atirar longe as fatias de pão, mesmo quando ainda não estavam torradas. O motivo da sua partida foi mais óbvio. Chegara em marcha tranqüila, alegre, própria de manhã de verão. Partia com uma velocidade que levaria qualquer treinador de corridas a erguer as sobrancelhas e franzir os lábios com ar aprovador.

E não diminuiu a velocidade até entrar no gabinete do delegado, sem chapéu e sem torradeira, colidindo direto com a parede.

Mãos prestimosas levantaram-no. Tentou falar, mas durante meio minuto não conseguiu nem sequer se acalmar para respirar direito.

Deram-lhe uísque e o abanaram, e quando finalmente falou saiu-se com esta:

- Monstro… dois metros e meio de altura… cabana destruída… coitado do Ronnie Payne… etc.

Aos poucos foram sabendo da história: havia um imenso monstro metálico, de dois metros e meio de altura, talvez três ou quatro, na cabana de Ran-dolph Payne. O coitado do Payne estava caído de bruços, “um corpo sangrento, dilacerado”. O monstro ocupava-se em destruir a cabana por puro prazer de destruição. Voltara-se para Lemuel Ohver Cooper, que escapara por um triz.

O Delegado Saunders apertou o cinto na ampla cintura e disse:

- É aquela máquina que fugiu da fábrica de Petersboro. Recebi um aviso no sábado passado. Ei, Jake, reúna todos os homens de Hannaford capazes de atirar e coloque no peito deles um distintivo de delegado. Reúna-os aqui ao meio-dia. E ouça, Jake, antes disso, passe pela casa da viúva Payne e dê-lhe a má notícia com todo o cuidado.

Diz-se que Mirandy Payne, ao saber do ocorrido, fez uma pausa para certificar-se de que a apólice de seguro do marido se encontrava no cofre, emitiu algumas observações relativas ao fato dele não ter dobrado a quantia, e depois entregou-se a um prolongado choro de cortar o coração, como cabe a qualquer viúva que se preza.

Horas depois, Randolph Payne – ignorando sua horrível mutilação e morte – estudou os negativos das fotos. Estava satisfeito. As seqüências de ângulos do robô trabalhando não deixavam pairar dúvidas. Poderiam intitular-se: “Robô Contemplando Pensativo um Aspirador de Pó”, “Robô Dividindo Fios”, “Robô Manejando Chaves-de-Parafusos”, “Robô Despedaçando Refrigerador com Grande Violência” etc.

Como só restava a tarefa simples de revelar as fotos, saiu da câmara escura improvisada, a fim de fumar um pouco e bater um papo com al-76.

Ignorava completamente que a floresta ao redor pululava de fazendeiros nervosos, carregando as mais variadas espécies de objetos contundentes, assim como uma infinidade de armas, desde um arcabuz colonial, verdadeira relíquia, até uma metralhadora portátil, empunhada pelo delegado. Ignorava também que meia dúzia de roboticistas, sob a chefia de Sam Tobe, percorriam a estrada de Petersboro a mais de duzentos quilômetros por hora, com a finalidade exclusiva de ter o prazer e a honra de conhecê-lo.

Enquanto essas duas ocorrências caminhavam para um clímax, Randolph Payne suspirava, satisfeito consigo mesmo, riscava um fósforo nos fundilhos das calças, tirava uma fumaça do cachimbo e observava al-76 com ar divertido.

Tornara-se óbvio que o robô estava mais do que lunático. Randolph Payne era bastante hábil com aparelhos domésticos, tendo construído vários que não podiam ser expostos à luz do dia sem ferir os olhos de quem os contemplava, mas nunca concebera algo parecido com a monstruosidade que al-76 estava criando.

Faria os Rube Goldbergs da época morrerem de inveja. Faria Picasso (se vivesse ainda para contemplá-lo) desistir da arte, convicto de estar totalmente obsoleto. Azedaria o leite nas tetas de todas as vacas, numa circunferência de meio quilômetro.

Era de fato horripilante!

De uma base de ferro maciça e enferrujada, que se parecia vagamente com uma parte de trator de segunda mão, erguia-se um amontoado de entontecer: fios, rodas, tubos, horrores inomináveis sem conta, terminando num megafone de aparência decididamente sinistra.

Payne sentiu ímpetos de espreitar pelo megafone, mas conteve-se. Vira aparelhos mais sensatos que aquele explodirem violentamente.

- Ei, Al – chamou.

O robô levantou a cabeça. Estava deitado de braços, ajustando uma fina placa de metal.

- Que quer, Payne?

- Que é isto? – perguntou, no tom de quem se refere a algo sujo, em decomposição, mal seguro entre duas varas de três metros de comprimento.

- É um Disinto, para eu poder começar a trabalhar. Aperfeiçoei o modelo anterior. – Erguendo-se, tirou ruidosamente o pó de seus joelhos metálicos e sorriu, orgulhoso.

Payne estremeceu. Um “aperfeiçoamento”! Não era para admirar que escondessem o original nas cavernas da Lua. Pobre satélite! Pobre satélite morto! Sempre quisera saber o que seria sorte pior que a morte. Agora sabia.

- Funciona?

- Claro.

- Como sabe?

- Tem de funcionar. Fui eu que fiz, não fui? Só preciso de uma coisa agora. Tem uma lanterna de bolso?

- Creio que sim. – Payne entrou na cabana e voltou logo em seguida.

O robô desatarraxou a extremidade e pôs-se a trabalhar. Dentro de cinco minutos havia terminado. Recuando, disse:

- Tudo pronto. Agora vou entrar em ação. Pode olhar, se quiser.

Uma pausa, enquanto Payne tentava ponderar a magnitude do oferecimento.

- É seguro?

- Até uma criança seria capaz de manejá-lo.

- Ah – Payne teve um débil sorriso e colocou-se por trás da árvore mais volumosa das imediações. – Vamos, tenho a maior confiança em você.

al-76 apontou para o espantoso amontoado de ferro velho e disse:

- Observe! – E pôs-se a trabalhar.

Os fazendeiros de Hannaford, Virgínia, em pé de guerra, aproximavam-se da cabana de Payne, apertando o cerco. Com o sangue de seus heróicos antepassados circulando rápido nas veias – e arrepios descendo a espinha – esgueiravam-se de árvore em árvore.

O Delegado Saunders ordenou:

- Atirem quando eu der o sinal. E apontem para os olhos.

Jacob Linker – Lank Jake para os amigos e assistente de delegado para si mesmo – aproximou-se.

- Acha que a máquina deu o fora? – Não conseguiu conter o tom esperançoso da voz.

- Não sei – resmungou o delegado. – Acho que não. Teríamos encontrado com ela na floresta, e não encontramos.

- Mas está tudo tão quieto. E parece que já estamos bem perto da cabana de Payne.

O lembrete era desnecessário. O Delegado Saunders tinha um bolo tão grande na garganta que precisou engoli-lo em três prestações.

- Recue – ordenou – e mantenha o dedo no gatilho.

Encontravam-se na orla da clareira. O delegado fechou os olhos e espreitou pelo cantinho de um deles, por trás de uma árvore. Não vendo coisa alguma, fez uma pausa, tentou novamente, olhos abertos, desta vez.

Os resultados, naturalmente, foram melhores.

Para ser exato, viu um imenso homem mecânico, de costas para ele, inclinado sobre um aparelho de arrepiar, de origem incerta e finalidade idem. O único detalhe que lhe escapou foi a trêmula figura de Randolph Payne agarrado à terceira árvore na direção nor-noroeste.

O delegado saiu para terreno descoberto e ergueu a metralhadora. O robô, voltando-lhe ainda amplas costas de metal, disse em voz baixa, para pessoa ou pessoas desconhecidas:

- Veja! – E quando o delegado abriu a boca para ordenar a fuzilaria geral, dedos metálicos comprimiram uma alavanca.

Impossível fazer uma descrição adequada do que ocorreu então, apesar da presença de setenta testemunhas oculares. Nos dias, meses e anos seguintes, nem um só dos setenta seria capaz de descrever os segundos subseqüentes ao momento em que o delegado abriu a boca para dar a ordem de fogo. Quando interrogados empalideciam e afastavam-se oscilantes.

É óbvio, porém, graças a provas circunstanciais, que o que aconteceu foi mais ou menos o seguinte:

O Delegado Saunders abriu a boca, al-76 puxou uma alavanca. O Disinto funcionou, e setenta e cinco árvores, dois celeiros, três vacas e os três quartos superiores do morro Duckbill desfizeram-se no ar.

Fundiram-se, por assim dizer, com as neves de antanho.

A boca do delegado permaneceu aberta por um espaço indefinido de tempo, mas nada – nem ordem de fogo, nem coisa alguma – dali saiu. E então…

Então ouviu-se uma agitação no ar, uma série de raios cor de púrpura cortou a atmosfera, tendo a cabana de Randolph Payne como centro. Dos componentes do grupo atacante, não sobrou vestígios.

Restaram diversas armas espalhadas pelo local, inclusive a metralhadora niquelada, de fogo extra-rápido, garantida contra enguiços, pertencente ao delegado. Viam-se também cerca de cinqüenta chapéus, algumas pontas de charutos e artigos de indumentária variados, que se haviam desprendido na agitação. Mas ser humano não havia um só.

À exceção de Lank Jake, nenhum espécime humano surgiu por ali durante três dias, e a exceção só ocorreu porque sua fuga meteórica foi interrompida por meia dúzia de homens da fábrica de Petersboro, penetrando no bosque com igual velocidade.

Foi Sam Tobe quem o deteve, segurando habilmente a cabeça de Lank Jake, que colidira com o seu estômago. Quando recuperou o fôlego, Tobe perguntou:

- Onde é a cabana de Randolph Payne? Lank Jake permitiu que seus olhos o focalizassem por um instante e respondeu:

- Amigo, siga na direção oposta à minha.

E, com isso, miraculosamente desapareceu. Viu-se um ponto no horizonte, que se desviava das árvores e talvez fosse ele, mas Sam Tobe não seria capaz de jurar.

Isso foi o que aconteceu com o grupo. Mas resta saber o que ocorreu com Payne, cujas reações assumiram forma um tanto diferente.

Para Randolph Payne, o intervalo de cinco segundos subseqüentes ao puxar da alavanca e ao desaparecimento do morro Duckbill foram um branco total. A princípio espreitara através das moitas espessas, por trás das árvores. Quando tudo terminou encontrava-se pendurado nos mais altos galhos. O mesmo impulso que impelira o grupo horizontalmente impulsionara-o verticalmente.

Quanto ao modo como percorrera os quinze metros entre raízes e topo da árvore – se galgara, saltara ou voara – isso não sabia nem queria saber.

O que ele sabia é que a propriedade fora destruída por um robô temporariamente em seu poder. Desapareciam assim todas as visões de recompensas, substituídas por pesadelos de cidadãos hostis, multidões ululantes, processos, acusações de assassinato e recriminações de Mirandy Payne. Principalmente as recriminações de Mirandy Payne.

Rouco e furioso, gritou:

- Ei, robô, destrua essa coisa, ouviu? Destrua completamente! E esqueça de que eu tenho algo a ver com a história. Não o conheço, ouviu? Nunca mais fale no assunto. Esqueça, ouviu?

Não esperava que suas ordens surtissem efeito, eram apenas um reflexo. O que ignorava é que um robô obedece sempre a ordens humanas, a menos que envolva perigo para outro ser humano.

al-76, portanto, pôs-se a demolir, tranqüila e metodicamente, o seu Disinto, transformando-o num monte de sucata.

Quando estava amassando o último centímetro cúbico de metal, Sam Tobe chegou com o seu contingente, e Randolph Payne, percebendo que se tratava dos verdadeiros donos do robô, caiu de cabeça do alto da árvore e desapareceu em regiões desconhecidas.

Nem esperou pela recompensa.

Austin Wilde, engenheiro robótico, voltou-se para Sam Tobe e indagou:

- Conseguiu obter alguma coisa do robô?

Tobe meneou a cabeça, com um grunhido surdo.

- Nada. Nada absolutamente. Esqueceu tudo o que aconteceu depois que saiu da fábrica. Deve ter recebido ordens para esquecer, caso contrário não estaria tão em branco. Que pilha de ferro velho era aquela com que estava brincando?

- Exatamente isso: uma pilha de ferro velho. Mas deve ter sido um Disinto antes de ser destruído e eu gostaria de matar o camarada que lhe deu ordens para amassá-lo – usando tortura lenta, se possível. Veja isto!

Estava a meia encosta do que fora o morro Duckbill – no ponto exato em que fora cortada, e Wilde colocou a mão sobre a superfície perfeitamente reta que talhara solo e rocha.

- Que Disinto! Arrancou a montanha pela base.

- Por que o terá construído?

Wilde deu de ombros.

- Não sei. Algum fator ambiental. Impossível saber o que reagiu sobre seu cérebro positrônico programado para a Lua, levando-o a fabricar um Disinto com um monte de ferros velhos. Há um bilhão de chances contra uma de descobrir esse fator, agora que o próprio robô o esqueceu. Nunca possuiremos aquele Disinto.

- Não importa. O principal é que temos o robô.

- Ao diabo com ele! – Havia um pungente lamento na voz de Wilde. – Tem alguma idéia do que são os Disintos na Lua? Consomem energia como porcos eletrônicos e só funcionam quando se obtém um potencial de milhão de volts. Mas este Disinto funcionava diferente. Examinei os destroços com microscópio. Gostaria de ver a única fonte de energia que encontrei?

- Que é isso?

- Apenas isso! E jamais saberemos como as utilizou.

E Austin Wilde exibiu a fonte de energia que possibilitara a um Disinto cortar uma montanha em meio segundo: duas baterias de lanterna portátil!

Isaac Asimov
Publicado originalmente no livro Nós, Robôs, Hemus Editora