A Pequena Vendedora de Fósforos

9 06 2008

Era véspera de Natal. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. Ela estava calçada quando saiu de casa, mas os chinelos eram muito grandes, pois eram os que a mãe usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados quando atravessava correndo uma rua para fugir de dois carros que vinham em disparada. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo, gritando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos quando os tivesse. A menina continuou a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos. Tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera uma esmola — nem um só cruzeiro.

Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e desânimo — a imagem viva da miséria.

Os flocos de neve caíam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera de Natal —; isso sim, ela não esquecia.

Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém. Era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.

Tinha as mãozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!

Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e… tss! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via a parede escura e fria.

Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um véu, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto à menina, que estava com tanta fome, e…

Mas — o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu, lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.

— Morreu alguém — disse a criança.

Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que já estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.

Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó quem lhe apareceu, a sua boa avó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.

— Vovó! — gritou a pobre menina. Leva-me contigo… Já sei que, quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda árvore de Natal!

E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão grandiosa, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no céu com Deus.

A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.

A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mãozinha cheia de fósforos queimados.

— Sem dúvida, ela quis aquecer-se — diziam.

Mas… ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem com que júbilo tinha entrado com a avó nas glórias do Natal no Paraíso.

Hans Christian Andersen
Extraído do Institudo OCW Brasil

 





Cinco na Mesma Vagem

9 06 2008

Numa vagem estavam cinco ervilhas. Estavam ainda verdes e verde era também a vagem; por esta razão acreditavam que o mundo era verde; – que o leitor se considere na posição das ervilhas, e facilmente perceberia esta ilusão. Cresceu a vagem, cresciam as ervilhas, tendo sempre o cuidado de se conservarem bem alinhadas e nas respectivas distâncias.
O sol aquecia a vagem; a chuva e as gotas de orvalho a tornavam clara e transparente, e assim, durante o dia, gozavam as ervilhas uma doce claridade e durante a noite as trevas lhes favoreciam o sono. Mas, crescendo, tornaram-se sérias e cismadoras.

- Então ficaremos sempre aqui? disse uma delas. Muitas coisas há-de haver lá fora dignas de admiração. Passaram algumas semanas e elas amareleceram.

- Agora está tudo amarelo, diziam as cinco ervilhas; muitas voltas dá o mundo.

Subitamente sentiram uma viva comoção; um homem arrancara a vagem e a lançara num cesto com muitas outras.
- Ora enfim, vamos ter a liberdade, disseram as ervilhas; e esperavam com impaciência o grande e venturoso momento.
- Qual de nós irá mais longe no mundo, e chegará a uma posição mais elevada? disse a mais pequena das cinco. Em breve o saberemos.
- Seja feita a vontade do Senhor! disse a maior, com sincera resignação.
Traz! abriu-se a vagem: e as cinco ervilhas rolaram na mãozita dum rapaz.
- Oh! que belas balas para a minha espingarda! exclamou ele, e meteu uma no tubo de lata e largou a espiral.
- Vou correr mundo, pensou a ervilha cheia de entusiasmo. E desapareceu. O rapaz introduziu a segunda no cano.
- Agora vou parar ao sol, pensou a ervilha, descrevendo a sua parábola. Que vagem tão quentinha que hei-de ter lá.

As três ervilhas restantes, menos ambiciosas, assustaram-se vendo as grandes cambalhotas das suas companheiras, e deixaram-se escorregar e cair no chão; mas o rapazito apanhou-as também, dando lhes o mesmo destino.
- Chegou a minha vez, disse a última, cumpra-se a vontade do Senhor! e foi cair na janela duma casa pobre, antes uma choupana, numa fenda cheia de musgo e terra.
O musgo em breve cercou e envolveu o pequeno grão. Na choupana morava uma infeliz mulher que vivia de fazer recados e de pesados trabalhos. Aceitava os trabalhos mais custosos, porque era forte e corajosa e… era mãe; e a_ filha, uma criança pálida e loura, flutuava, havia quase um ano, entre a vida e a morte.

- Também esta vai para o céu, dizia a pobre mãe; vai juntar-se à irmãzinha. Meu Deus! já me levastes uma, deixai-me esta, Senhor! Estás tão doente, tão fraca, parece-me que não escapas, filha!

Chegou a primavera, e, uma manhã, quando a mãe ia sair, o sol, rompendo a neve iluminou com tal intensidade a janela da choupana, que a doente olhou para lá admirada.
- Parece-me, disse ela, ver o que quer que é, a tremer, ali na janela. Que é?
A mãe abriu a janela.
- Olha a graça! disse ela, é uma ervilha que está aqui entre o musgo; já tem umas folhinhas; como viria ela aqui parar?
- Não a arranque, mãe, deixe ver se ela cresce muito…
- Não, filha, não a arranco. Queres vê-la mais de perto?
E aproximou o leito da janela, para que a filha visse melhor a planta delicada; depois abraçou-a e saiu.
À noite, assim que entrou, disse-lhe a pequena:
- Já estou melhor, fez-me bem o calor do sol, e, olhe, vendo como a ervilha ali nasceu e vai crescendo, pensei que me havia de curar e que o sol e o ar me fariam bem.
— Queira Deus! respondeu a mãe, ainda assim com bem pouca esperança.

No dia seguinte a pobrezinha rodeou a ervilha com um pequeno caniçado; passados dias as hastes verdes e sarmentosas se entrelaçavam cheias de viço e frescura, e não tardou muito a aparecer a primeira flor.

- Feliz presságio! pensou a mãe, e começou a ter também esperanças na cura da pobre criança. A doentinha falava já com mais animação; levantava-se e assentava-se sem ajuda, e olhava sempre com o maior prazer, com afeição até, a planta que revestira a janela com um cortinado de verdura. Uma semana mais tarde, podia ela já estar algumas horas fora do leito, todos os dias. Assentava-se junto da janela e aí, em companhia das flores alvas e rosadas, gozava da suavidade do ar e do calor do sol.
— Foi o bom Deus, dizia a alegre mãe, foi o bom Deus, minha filha, que fez crescer a pobre planta numa fenda cheia de musgo para que o seu aspecto alegrasse os teus olhos e nos desse a ambas coragem e esperança.

E as outras ervilhas? que seria feito delas? Uma caíra num telhado e foi engolida por um pombo, e a mesma sorte tiveram as outras duas; sempre serviram para alguma cousa. A outra, a tal que desejava ir para o sol, caiu mesmo no meio da regueira, e aí ficou, na lama, cada vez mais inchada.

- Se isto continua, dizia ela, arrebentarei sem dúvida. Estou certa que nenhuma outra ervilha atingiu um tão colossal desenvolvimento; das cinco que estávamos na mesma vagem sou eu a mais notável, mas muito mais notável.
Talvez minhas irmãs tenham alcançado posições eminentes? Mas o importante é engordar.

Um dia a rapariga da choupana, completamente restabelecida, os olhos brilhantes, as faces rosadas, aproximou-se da janela, elevou ao céu as mãozinhas postas e do íntimo do seu coração agradeceu a Deus o ter-lhe restituído a saúde, e o ter poupado á mãe a dor imensa de ver morrer a sua ultima filha; e depois inclinou o olhar sobre a planta, que tinha as folhas ainda verdes, mas cujas flores haviam já sido substituídas por formosas vagens.

- E tu, minha pobre planta, verde como a esperança e que foste para mim o primeiro sinal da protecção divina, tu não tardarás a amarelecer e a secar. Mas eu não te esquecerei; colherei os teus grãos e todos os anos os teus descendentes crescerão tratados pelas minhas mãos aqui nesta janela; e as suas flores serão sempre para mim as mais encantadoras e mimosas. E a ervilha, confiada nesta promessa da inocente, regozijou-se pensando que o beneficio dela seria útil à sua posteridade.

- Seja feita a vontade do Senhor! repetia ela. Pobre ervilha como sou, a minha existência limita-se a uma estação; mas como é agradável pensar que hei-de sobreviver nos filhos, e que eles serão ainda protegidos pelas recordações que eu deixar! Não será este um modo de ir longe, bem longe no mundo?

E no entretanto a regueira lá ia levando a sua água fétida e turva, murmurando:

- Cá levo a minha ervilha. Tanto engordou, tanto se saturou de lama, que se desfez em podridão. Não deixou nem um gérmen, nem uma lembrança. Serviu apenas para ajuntar alguns átomos sem nome aos que eu tenho já e que servem para alimentar a terra e os animais imundos. Fim dos ambiciosos! Querem a princípio ir para o sol e quando lhes sucede cair na lama, acham-se tão bem, tão no seu elemento que não pedem mais nada. A este respeito as ervilhas parecem-se muito com os homens.

Hans Christian Andersen
Extraído do site HC Andersen





O Anjo e a Flor do Campo

9 06 2008

- Sempre que sucede morrer uma criança boa, desce um anjo do céu a buscá-la, e, depois de a recolher em seu regaço, desdobra as asas brancas, dadas pelo Criador, afim de ir percorrendo em seguida todos os sítios com que na terra a criança mais simpatizou. As flores que nesta digressão apanham, levam-nas ambos ao Pai Celeste, para ele as fazer lá reflorir no empíreo mais formosas e odoríferas, imarcescíveis mesmo. Deus então aconchega ao peito essas flores, – e na que mais lhe apraz deposita um beijo. Esse beijo tem o condão miraculoso de inocular na flor animação e voz.

Destarte a flor transfigurada passa a tomar parte também nos harmoniosos coros dos bem-aventurados. Assim falava um anjo de Deus na ocasião de transportar para a mansão celestial uma criança morta. E a criança escutava o anjo, absorta, embevecida, como se a envolvessem cintilantes brumas de um sonho fagueiro. E o anjo, conchegando ao regaço a criancinha, voava naquele momento por sobre os sítios, de que cila mais tinha gostado em vida, – jardins esmaltados de flores lindíssimas.

- Quais destas queres, perguntava o anjo, que daqui levemos para lá plantarmos no céu?

Aconteceu passarem por junto de uma roseira magnífica. Mãos daninhas, porém, de qualquer mal-intencionado, haviam barbaramente praticado o acto brutal de quebrar-lhe o tronco, por forma que os desditosos ramos, carregadinhos de rubros botões prestes quase a desabrocharem, pendiam tristemente imurchecidos, enquanto de todo não secassem.

- Que dó que me faz o pobrezinho do arbusto! exclamou a criança. Ah! que se pudéssemos levá-lo connosco para ir lá no céu reverdecer e reflorir!…
Fez-lhe o anjo a vontade e apanhou a roseira. Depois continuaram a colher flores de variadas castas, até reunirem um volumoso braçado.
- Parece-me que bastam agora já essas que levamos, observou a criança.
O anjo fez um aceno de condescendência, mas sem remontar ainda o voo para o firmamento. Começava a pronunciar-se cada vez mais a escuridão da noite incipiente. Reinava em torno um silêncio profundíssimo. Nisto aconteceu passarem quase rentes com uma ruazita estreita e sombria, em cujo pavimento jaziam dispersos, abandonados, desprezados por entre o lixo do solo, fragmentos de loiça quebrada, vidros partidos, chinelos velhos, farrapos e trapalhadas, que denunciavam esse conjunto de peripécias sempre mais ou menos inerentes a qualquer mudança de domicílio. Algum morador, que dali se ausentara, – ao transportar para a nova residência seus pobres tarecos, havia certamente arremessado à rua a inútil frandulagem de que já não precisava.

Por entre estes destroços mostrou o anjo à criança os cacos de um vazito de flores. Junto aos cacos viam-se os torrões esboroados da terra que em tempo enchera o vaso. A um desses torrões prendiam-se ainda as raízes de uma singela planta campestre, com a sua florinha de mimosas cores imurchecida já e quase esfolhada, suja de pó, amachucada e pisada pelos pés dos transeuntes. E, ao mostrar-lha, disse o anjo à criança:

- Levaremos também esta, coitada!, no caminho te irei contando os motivos.

Depois começou a erguer, a erguer o voo para o céu. Foi então que o anjo deu princípio à narrativa seguinte :

- Ali, naquela rua sombria que tu viste, morava numa espécie de toca uma criancinha enfermiça. Era um pequenito que nascera infezado e raquítico. Sua moléstia congénita impunha-lhe a necessidade tristíssima de permanecer quase sempre na cama. Se alguma vez acontecia sentir melhoras, o mais que lograva era percorrer o quarto em roda, amparado nas muletas. Quando chegava o estio, entravam-lhe pela janela uns raios de sol a iluminarem-lhe o acanhado âmbito do seu miserável domicílio. A criança aproveitava então a visita fugitiva daquelas ondulações luminosas e nelas se aquecia, e nelas buscava revivificar-se, como se fora aquilo a benéfica influência de um higiénico passeio pelo campo. Este pequenito nunca em sua vida tinha pois podido apreciar a magnífica verdura das florestas, e delas só podia formar uma longínqua ideia por algum ramo de faia que o filho do vizinho lhe trazia de tempos a tempos, como lembrança. Pegava então no ramo, e dependurava-o por sobre a cabeceira, fazendo assim de conta que estava repousando à sombra de virente arvoredo, com as ondulações doiradas de um sol em perspectiva e um delicioso chilreio de mil passaritos a encher-lhe de música os ouvidos. Numa bela manhã de primavera trouxeram-lhe umas flores do campo; casualmente uma destas vinha ainda com a raiz intacta. Tira-se de cuidados o pequeno, e trata de plantar cautelosamente o vegetalzito num vazinho de barro, que daí por diante ficou constituindo o seu constante enlevo, poisado no parapeito da janela, à ilharga do leito em que jazia. Plantado por mãos carinhosas, regado, tratado, acariciado, o vegetal campestre soube na sua humildade agradecer os afagos de tanta solicitude; em breve lhe pulularam viçosos rebentos; e todos os anos se desatava em novas flores, como a festejar o seu desvelado cultor. Para o pobre doentinho era aquilo o seu estimado jardim, o seu único tesouro neste mundo; queria-lhe com todo o afecto da sua alma; prodigalizava-lhe os seus mais encarecidos mimos; da água, que bebia, dava-lhe sempre as primícias; colocava-o de modo que nunca perdesse um raio sequer do sol que escassamente lhe entrava pela janela. E a humilde planta vegetava e desenvolvia-se; revestia-se cada vez mais de folhedo; toucava-se de botões que desabrochavam em flores; irradiava-lhe perfumes; parecia até sorrir-lhe com requintes de galanteio. Por sua parte o pequenito, – quando afinal Deus o chamou à sua eterna presença, – o pequenito, antes de soltar o derradeiro suspiro, inclinou-se comovido para a sua verde companheira e segredou-lhe de mansinho, muito de mansinho, as suas ternas, últimas despedidas. Faz agora um ano, que o pobre enfermo faleceu; e durante este ano todo lá ficou desprezada, esquecida a um canto, no mesmo parapeito da esguia fresta, a planta campesina em que outrora havia docemente concentrado seus cuidados e alegrias o infantil doentinho. Faltando-lhe os mimos, a que se acostumara, pouco a pouco murchou e se foi o triste vegetal mirrando, até que o próprio vaso agora lhe deitaram à rua, como inútil pejamento, por ocasião de sair dali quem habitava naquela mi­ serável toca. Foi esta a flor, que ora acabámos de cuidadosamente recolher de entre o lixo da rua; e, se em nosso ramalhete a arrecadei com tanto carinho, é porque, – onde a vês, amachucada, espezinhada, — causou já mais alegrias e mais enlevos, do que se fora uma flor raríssima no jardim de uma rainha!

- E como é que tu sabes os pormenores todos dessa história? perguntou a criança ao anjo.

- Como é que os sei? é porque se passaram comigo estas particularidades; o pequenito das muletas sou eu; não querias que reconhecesse a minha estimadíssima flor?

A criança olhou então deslumbrada para o rosto esplendoroso do anjo. Chegavam naquele momento às luminosas portas da privilegiada mansão, em que ninguém respira senão júbilo inefável e felicidade eterna.

Quando o Pai do Céu estreitou em seus braços o corpinho da criancita morta, sentiu esta, como por encanto, despontarem-lhe milagrosamente nas costas duas azas brancas, muito brancas, de plu magem fina, acetinada, exactamente iguais às do anjo que o transportara.

E ambos de mãos dados, agora perfeitamente idênticos na sua essência imutável, ambos gracio samente unidos em fraternal amplexo, foram então voando risonhos pela estrelada amplidão do empí reo.

Em seguida recolheu Deus no regaço as flores que os recém-chegados lhe haviam trazido; todas amimou e agasalhou por igual; – mas na pobre planta que o anjo apanhara de entre o lixo, nessa, como se quis esse distingui-la com o privativo selo da sua espe­cial predilecção, depositaram seus divinos lábios um beijo.

É logo a florinha dos campos, que abandonada e desprezada jazera na lama da rua, de pronto renasceu transfigurada; brotou-lhe instantaneamente voz; incorporada no grupo infinito das criaturas angélicas que flutuam em torno do Omnipotente, ficou simultaneamente com estas entoando os solenes cânticos da felicidade celeste.

Hans Christian Andersen
Extraído do site HC Andersen





O Trigo Mourisco

8 06 2008

Muitas vezes, após uma trovoada, ao passar-se por um campo de trigo mourisco, pode ver-se como ficou todo chamuscado. É como se o fogo tivesse passado por ele e o camponês dá-nos a explicação seguinte: “Foi um raio!” Mas porquê? Pois vou contar-lhes o que disse a um pardal um velho salgueiro que se encontrava perto dum campo de trigo mourisco e ainda lá está. É um salgueiro grande e venerável, mas enrugado e velho, um pouco rachado ao meio, com uma fenda onde crescem ervas e sarças. A árvore está um pouco tombada para a frente, e os ramos pendem para o solo, como se fossem uma longa cabeleira verde.

Em toda a volta havia campos de cereal, de centeio, de cevada e de aveia, a bela aveia que, quando está sazonada, parece um enorme bando de pequeninos canários amarelos pousados num ramo. Os cereais são assim uma bênção de Deus e quanto mais pesados estão, mais baixos se inclinam em humildade.

Mas havia também um campo de trigo mourisco, bem perto do velho salgueiro, que não queria nunca inclinar-se como os outros cereais; sempre se mantinha direito, orgulhoso e altivo.

— Sou tão rico como a espiga de trigo — disse ele. — Sou, além disso, mais bonito. As 15 minhas flores são tão belas como as da macieira, e é um regalo olhar para mim e para a minha floração. Conheces algo de mais belo, velho salgueiro? O salgueiro abanou a cabeça, como quem diz “pois claro que conheço”, mas o trigo mourisco inchou de orgulho e exclamou: — Árvore estúpida, tão velha estás que te crescem ervas na barriga!

Então rebentou uma terrível trovoada. Todas as flores dobraram as folhas ou inclinaram as cabeças, enquanto passava a trovoada sobre elas. Só o trigo mourisco continuava com a cabeça erguida, no seu orgulho.

— Abaixa a cabeça, como nós! — disseram as flores.

— Não tenho nenhuma necessidade disso! — respondeu o trigo mourisco.

— Abaixa a cabeça como nós! — gritou o trigo. — Vem aí o Anjo da Tempestade! Tem asas e com elas alcança tanto o céu lá em cima como a terra cá em baixo. Pode ceifar-te sem teres sequer tempo de pedir-lhe mercê.

— Está bem, mas eu não vergo! — retorquiu o trigo mourisco.

— Anda, fecha as flores e dobra as folhas! — disse o velho salgueiro. — Não olhes para cima, para os raios, quando as nuvens rebentam. Nem os próprios homens o podem fazer, pois que por eles é possível olhar para dentro do Céu, mas isso é bastante para os cegar. E o que nos aconteceria a nós, plantas da terra, se o ousássemos fazer, nós que somos muito menos?

— Muito menos? — disse o trigo mourisco. — Pois vou mesmo olhar para dentro do Céu! E foi isso que fez, com presunção e orgulho. Caiu então uma faísca tão grande que parecia que toda a terra ardia em chamas.

Quando o mau tempo passou, sentiram-se as flores e os cereais numa atmosfera calma e pura, refrescada pela chuva; mas o trigo mourisco ficara completamente queimado, reduzido a carvão pelo raio. Era agora uma erva inútil e morta no campo.

O velho salgueiro agitava os ramos ao vento e deixava tombar grandes gotas de água das suas folhas verdes, como se chorasse. Os pardais perguntaram-lhe:

— Porque estás a chorar? Não é tudo maravilhoso? Repara como brilha o sol e deslizam as nuvens. Não sentes o perfume das flores e dos arbustos? Porque choras, pois, velho salgueiro?

Então, o salgueiro falou-lhes do orgulho e da presunção do trigo mourisco e do seu castigo. É sempre assim. Eu, que escrevi este conto, ouvi-o duns pardais. Contaram-mo uma tarde em que lhes pedi uma história.

Hans Christian Andersen
Extraído do site Guida Querido





Uma Rosa na Campa de Homero

8 06 2008

Em todas as canções do Oriente soa o amor do rouxinol pela rosa. Nas noites calmas, claras de estrelas, o cantor alado faz uma serenata à sua odorosa flor.

Não longe de Esmirna, sob os altos plátanos, para onde o mercador puxa os camelos carregados que levantam orgulhosamente os pescoços altos e pisam desajeitados a terra, que é santa, vi um roseiral florido. Pombas bravas voavam entre os ramos altos das árvores e as suas asas cintilavam, quando um raio de sol tombava sobre elas, como se fossem de madrepérola.

No roseiral havia uma flor entre todas a mais bonita e era para esta que cantava o rouxinol as suas mágoas de amor. Mas a rosa estava silente, nem uma gota de orvalho havia, como lágrima de compaixão, nas suas pétalas. Curvava-se com o caule para baixo sobre umas pedras.

- Jaz aqui o maior cantor da terra! – disse a rosa. – Quero perfumar a sua campa. Sobre ela quero derramar as minhas pétalas, quando a tempestade as arrancar. O cantor da Ilíada tornou-se terra nesta terra, donde broto… Eu, uma rosa da campa de Homero, sou demasiado sagrada para florir para o pobre rouxinol!

E o rouxinol cantou até morrer.

O condutor de camelos chegou, com os seus camelos carregados e os seus escravos negros. O filhinho dele encontrou o pássaro morto. Enterrou-o na campa do grande Homero. E a rosa agitou-se ao vento. Veio a noite, a rosa fechou completamente as pétalas e sonhou… que era um belo dia de sol. Chegava uma multidão de estrangeiros, de francos. Faziam uma viagem de peregrinação, à campa de Homero. Entre os estrangeiros havia um cantor do Norte, da terra das neblinas e das auroras boreais. Arrancou a rosa, premiu-a num livro e levou-a consigo para outra parte do mundo, para a sua pátria distante. E a rosa murchou de pena e ficou no livro fechado, que ele abriu em casa, dizendo:

- Eis uma rosa da campa de Homero!

Ora vejam, isto sonhou a flor que acordou e estremeceu ao vento. Uma gota de orvalho caiu das suas pétalas na campa do cantor e o sol ergueu-se, o dia tornou-se quente e a rosa resplandeceu ainda mais bela do que antes – estava na sua Ásia quente. Ouviram-se então passos, vieram estrangeiros, francos, que a rosa vira no seu sonho e entre os estrangeiros havia um poeta do Norte. Este arrancou a rosa, premiu um beijo na sua boca fresca e levou-a consigo para a terra de neblinas e auroras boreais.

Como uma múmia repousa agora o cadáver da flor na sua Ilíada e como em sonho ouve ela abrir o livro a dizer: “Eis uma rosa da campa de Homero!”.

Hans Christian Andersen
Extraído do site Guida Querido