Título Desconhecido

30 08 2008

Peço perdão pela falta de título,
mas realmente não consegui
encontrá-lo em nenhuma
das minhas fontes.

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

“É incrível quando você pára pra pensar…,” disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios. “Eternamente não,” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”

“Isso não é eternamente.”

“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?”

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida. “Dez bilhões de anos não é a eternidade”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”

“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”

“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós,” disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.

“Duvido que saiba.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”

“Está certo. E quem disse que não terá?”

“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`.”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Por que não? Algum dia.”

“Nunca”

“Pergunte a Multivac.”

“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte?

Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

* * *

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23,” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” Disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

“E por que não teria?” Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. “Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd. “Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado.” E, depois de uma pausa reflexiva, “No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor de todos.”

“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

* * *

VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”

“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano.”

“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.

“Parece-me uma boa idéia,” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso, “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, “Viu!”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

* * *

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Não posso responder. O AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

“Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, “E alguma dessas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo, “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

* * *

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”

“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

* * *

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

* * *

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

“FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz.

Isaac Asimov
Extraído do site Novo Mundo





H. P. Lovecraft

30 08 2008

Aqui se encontram todos os contos do escritor norte-americano Edgar Allan Poe já publicados no Covil.

Os títulos estão dispostos em ordem alfabética.

 

 

 

 

C
Chamado de Cthulhu, O
Coisa no Umbral, A

D
Dagon
Depoismento de Randolph Carter, O

F
Festival, O

H
Horror em Dunwich, O
Horro no Museu, O





A Coisa no Umbral

30 08 2008

Morgan não é um literato; na verdade, ele mal consegue falar inglês com algum grau de coerência. É isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado.

Ele estava sozinho na noite em que aconteceu. Subitamente uma vontade incontrolável de escrever lhe assomou, e tomando a pena na mão ele escreveu o seguinte:

Meu nome é Howard Phillips. Vivo na Rua College, 66, em Providence, Rhode Island. A 24 de novembro de 1927 – pois não sei sequer em que ano estamos agora – adormeci e sonhei, e desde então tem sido incapaz de despertar.

Meu sonho teve início num pântano úmido e atulhado de juncos que jazia sob um céu cinzento de outono, com um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de liquens elevando-se ao norte. Impelido por alguma motivação obscura, ascendi à uma fenda ou fissura nesse gigantesco precipício, notando enquanto o fazia que as bocas negras de muitos buracos terríveis estendendo-se de ambas as partes até as profundezas do platô de pedra.

Em vários pontos a passagem era coberta pelo chocalhar das partes superiores da fissura estreita; esses lugares sendo excessivamente escuros, e proibindo a percepção de tais buracos que possam ter existido ali. Em tal espaço escuro senti consciência de um singular acesso de pânico, como se alguma sutil e incorpórea emanação do abismo estivesse engolindo meu espírito; mas a escuridão era grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme.

Concluindo, emergi sobre um platô de rocha musgosa e solo pobre, iluminado por um pálido luar que havia substituído o orbe moribundo do dia. Lançando meus olhos ao redor, não vi objeto vivo; mas estava sensível a uma comoção muito peculiar que vinha muito abaixo de mim, entre os sussurrantes vestígios do pântano pestilento que eu havia acabado de abandonar. Depois de caminhar por uma certa distância, encontrei os trilhos enferrujados de uma ferrovia de rua, e as placas comidas de cupins ainda seguravam o trole em boas condições. Acompanhando esta linha, logo dei com um carro amarelo de vestíbulos de número 1852 – de um tipo de dois vagões comum entre 1900 e 1910. Não estava tinindo, mas evidentemente preparado para partir; o trole estando no fio e o freio aéreo de quando em vez pulsando abaixo do chão. Entrei a bordo e olhei em vão pelo interruptor de luz – notando, enquanto o fazia, a ausência de cabineiro, que assim implicavam a ausência do motorneiro. Então sentei-me num dos bancos cruzados do veículo. Ouvi um farfalhar na grama esparsa à esquerda, e vi as formar escuras de dois homens caminhando ao luar. Tinham os quepes de uma companhia ferroviária, e não pude duvidar de que fossem o condutor e o motorneiro. Então um deles fungou com presteza singular, e elevou o rosto para uivar para a lua. O outro caiu de quatro para correr na direção do carro. Levantei-me de um salto e corri como louco para fora daquele carro e atravessei intermináveis léguas de platô até que a exaustão me forçou a parar: fazendo isto não porque o condutor tivesse caído de quatro, mas porque o rosto do motorneiro era um simples cone branco com um tentáculo vermelho como sangue na ponta…

Eu estava ciente de que apenas sonhava, mas a própria consciência não me foi agradável.

Desde aquela noite pavorosa, tenho rezado apenas para despertar: isso não acontece!

Ao invés disso eu me encontro com um habitante deste terrível mundo dos sonhos! Aquela primeira noite deu lugar à aurora, e caminhei sem rumo pelos pântanos solitários. Quando a noite veio, eu ainda caminhava, esperando acordar. Mas subitamente abri caminho entre os juncos e vi à minha frente o antigo bonde: e, a um lado, uma coisa com rosto em forma de conte levantava sua cabeça e uivava estranhamente para o luar que se derramava!

Tem sido a mesma coisa todo dia. A noite sempre me leva àquele lugar de horror. Tenho tentado não me mover com a chegada da noite, mas devo andar em meu sonambulismo, pois sempre acordo com a coisa de terror uivando à minha frente na pálida luz do luar, e viro-me e fujo como um louco.

Deus! Quando despertarei?

Foi isso o que Morgan escreveu. Eu iria à Rua College 66, em Providence, mas tenho medo do que posso encontrar lá.

H. P. Lovecraft
Texto originalmente publicado no livro A Tumba… e Outras Histórias
Extraído do site A Vida e Obra de H. P. Lovecraft





O Passado, Passado

29 08 2008

 

Acabara o jantar às seis horas e meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera à chácara. Um destes, o capitão-tenente Luís Pinto, ficou na sala a conversar com o dono da casa, o comendador Valadares, homem gordo e pacato, para quem a digestão era coisa séria, e tanto ou quanto científica.

- E pretende fazer outra viagem? perguntou o comendador continuando a conversa interrompida pela sobremesa.

- Agora, não. Salvo se embarcar por ordem do governo. Não é provável que precise de outra licença; em todo caso, não iria à Europa, a não ser por moléstia.

- Mas gostou tanto que…

- Que preciso descansar. Estou com quarenta e dois anos, sr. comendador, não é velhice; mas também não é idade de travessuras; e uma segunda viagem era verdadeira travessura.

O comendador não aprovou nem contestou a observação do hóspede; abriu a caixa de rapé. Tomou uma pitada e interrogou o oficial de marinha a respeito de algumas particularidades da viagem. O oficial satisfez-lhe a curiosidade narrando-lhe uma página das suas memórias de turista.

Luís Pinto, que sabemos ser capitão-tenente e contar quarenta e dois anos, era um homem alto, bem-feito, elegante, daquela elegância grave, própria de seus anos. Tinha os olhos negros e rasgados, o olhar inteligente e bom, maneiras distintas e certo ar de superioridade natural. Era isto o físico. O moral não era diferente. Não tinha más qualidades, ou se as tinha eram de pequena monta. Viúvo há dez anos, ficara-lhe do matrimônio uma filha, que mandara educar em um colégio. Essa criança era todos os seus amores na terra.

Algum tempo antes por motivos de moléstia, obtivera licença por um ano e empreendera uma viagem à Europa, de onde viera cerca de quinze dias antes.

A noite caíra de todo; os convivas recolheram-se à casa, onde uns foram jogar, outros conversar ou ouvir tocar. O sarau acabaria para o oficial como outro qualquer se não fora a entrada de uma visita inesperada para todas as pessoas da casa e muito mais para ele.

A visita de que se trata era uma senhora. A mulher do comendador apressou-se a recebê-la. D. Madalena Soares entrou na sala, com um passo de deusa e com ar tranqüilo e austero que lhe não ficava mal. Das pessoas que a não conheciam houve um notável silêncio de curiosidade. Trajava roupas escuras, de feição com a sua viuvez recente; era formosa, e contava trinta anos de idade.

Como todas as atenções estiveram voltadas para a recém-chegada ninguém reparou na impressão que esta produzira em Luís Pinto. A impressão foi de surpresa e gosto, uma comoção que o fez ficar pregado alguns instantes na cadeira em que estava sentado. Alguns minutos depois ergueu-se e dirigiu-se a D. Madalena Soares.

- Estarei tão velho que já me não conheça? disse ele.

Madalena estremeceu e olhou para ele.

- Ah! exclamou ela.

- Não se viam há muito tempo? perguntou a mulher do comendador.

- Um século, respondeu Madalena.

- Seis anos pelo menos, acrescentou Luís Pinto.

- Talvez mais. Chegou há pouco da Europa, ouvi dizer.

- Há poucos dias. Seu marido?

- Estou viúva.

- Ah!

Interrompeu-se a conversa neste ponto; aproveitamos a interrupção para dizer que Madalena, tendo casado com vinte anos, retirara-se daí a quatro para uma das províncias do Norte, de onde voltara dez meses antes, depois da morte do marido. Luís Pinto ignorava a morte deste.

Poucas palavras disseram mais os dois antigos conhecidos. A conversa tornou-se geral, e a noite passou-se, como se passaram as outras, sem nenhum incidente novo. Madalena, ao despedir-se, declarou ao capitão-tenente que a sua residência era na Rua das Mangueiras.

- Irei cumprimentá-la um dia destes.

- Aturar uma velha.

- Oh!

A exclamação de Luís Pinto foi repetida mentalmente pelos demais circunstantes; e a viúva retirou-se levando a admiração de todos. Houve um concerto de louvores à graça de suas maneiras, à beleza de seus olhos. Um só, entre tantos, ficara calado e pensativo: o oficial de marinha.

Por quê? Vamos sabê-lo.

Luís Pinto saiu da casa do comendador um pouco diferente do que lá entrara. Ia absorto e pensativo. O que ele dizia consigo mesmo era:

- Que é isto? Tantos anos depois! Viúva… estava longe de supô-lo. Viúva e formosa, tão formosa como era naquele tempo.

O monólogo continuou ainda por algumas horas, sobre o mesmo tema; as idéias bailaram-lhe no espírito durante o sono. Na manhã seguinte, a segunda ou terceira pessoa de quem se lembrou foi Madalena.

Dois dias depois cumpriu Luís Pinto a palavra dada na casa do comendador, foi à Rua das Mangueiras. Vestiu-se mais apurado que de costume; contemplou-se repetidas vezes ao espelho, não por vaidade, aliás justificável, porque ainda era um bonito homem, mas para ver se havia ainda em suas feições um resto da primeira mocidade.

Madalena recebeu-o com muita afabilidade. Estava com ela um menino de seis anos, seu filho; e, além dele, havia uma senhora idosa, tia de seu marido, que a acompanhara até à corte e ficara a residir com ela. A conversa versou sobre coisas gerais; mas por mais indiferente ou insignificante que fosse o assunto, Madalena tinha a arte de o tornar interessante e elevá-lo. Passaram as horas naturalmente depressa; Luís saiu satisfeito dessa primeira visita.

A segunda verificou-se dali a cinco ou seis dias; Madalena porém não estava em casa, e este desencontro, aliás fortuito, pareceu enfadá-lo. Encontrou-a em caminho, na Rua dos Arcos, com o filho pela mão.

- Venho de sua casa, disse ele.

- Sim? acudiu a viúva. Eu fui visitar umas amigas de outro tempo.

- De seis anos.

- De dez.

- Ainda se lembra do passado? perguntou Luís Pinto, dando às palavras uma entoação particular.

- Minha memória não esquece as afeições, respondeu ela naturalmente.

Luís cumprimentou-a e seguiu. A resposta da viúva não dizia talvez tudo: ele, contudo, deu-se por satisfeito em ter-lhe feito a pergunta.

O passado de que ele falava, como já a leitora terá suposto, era um namoro travado entre os dois antes do casamento de ambos. Não foi namoro ligeiro e sem raízes, antes passatempo que outra coisa; foi paixão séria e forte. O pai de Madalena opunha-se ao consórcio e declarou-se mortal inimigo do moço; empregou contra ele todas as armas de que podia dispor. Luís Pinto afrontou tudo; para vê-la de longe, colher um sorriso, amargo embora e desconsolado, atravessava audazmente a chácara em que ela morava, sem embargo dos espias que o dono da casa ali punha. Ia a todos os teatros e reuniões onde houvesse esperança de a ver, mantinham correspondência, sem embargo de todas as precauções paternais. Madalena mostrou-se firme durante todo esse tempo; e pela sua parte usou de todas as armas que lhe inspirava o coração: os rogos, as lágrimas, a reclusão, a abstinência de alimentos.

Nessa luta, que se prolongou por dois anos quase, venceu o pai de Madalena. A moça casou com o noivo que lhe apresentaram, um sujeito honrado e bom, que naquela ocasião era a mais detestável criatura do mundo. Luís Pinto suportou o golpe como poderia suportá-lo um coração que tantas provas dera de si. Casou mais tarde. O tempo distanciou-os; perderam-se completamente de vista.

Tal era o passado. Não o pode haver mais pejado de recordações, umas tristes, outras deliciosas; e a melhor maneira de apagar as tristes, e dar corpo às deliciosas, era reatar o fio quebrado pelas circunstâncias, continuando, após tanto tempo, o amor interrompido, desposando-a, enfim, agora que nenhum obstáculo podia haver entre os dois.

Luís foi à casa de Madalena no dia seguinte ao do encontro. Achou-a a ensinar a lição ao filho, com o livro sobre os seus joelhos.

- Deixa-me acabar esta página? perguntou ela.

Luís Pinto fez sinal afirmativo; e a mãe concluiu a lição do filho. Enquanto ela meia inclinada, ia acompanhando as linhas do livro, o oficial de marinha observava à luz do dia aquelas feições que tanto amara dez anos antes. Não era a mesma frescura juvenil; mas a beleza, que não diminuíra, tinha agora uma expressão mais grave. Os olhos eram os mesmos, dois grandes olhos negros e cintilantes. Eram os mesmos cabelos castanhos, e bastos, o pescoço de cisne, as mãos de princesa, o talhe esbelto, a graça e a morbideza dos movimentos. A viúva trajava com simplicidade, sem atavios nem arrebiques, o que dava-lhe à beleza um realce austero e certa gravidade adorável. Luís Pinto embebeu-se todo na contemplação do quadro e da figura. Comparava a donzela frívola e jovial de outro tempo à mãe desvelada e séria que ali tinha diante de si, e as duas fisionomias confundiam-se na mesma evocação.

A lição acabara; Madalena dirigiu-se ao capitão-tenente com a familiaridade de pessoas conhecidas, mas ainda assim com o acanhamento natural da situação. A conversa foi curta e salteada. Era natural falarem do passado; contudo, evitavam roçar o pensamento – a frase ao menos – pelos sucessos que romperam o vínculo de seus destinos.

- Acha-me velho, não é? perguntou o oficial ao ouvir um reparo de Madalena acerca da mudança que o tempo fizera nele.

- Mais velho, não, respondeu ela sorrindo; menos moço, talvez. Não admira, também eu perdi o frescor dos primeiros anos.

- A comparação é malfeita; eu entro pela tarde da vida; a senhora está em pleno meio-dia. Não vê estes cabelos grisalhos? Verdade é que a vida não me foi de rosas; e os desgostos, mais do que os anos…

- A cor dos cabelos não prova nada, atalhou a moça como se quisesse interromper alguma confissão. Meu pai, aos vinte e oito anos, tinha os cabelos brancos. Caprichos da natureza. Pretende voltar à Europa?

- Não pretendo; provavelmente não voltarei mais.

- Aquilo é tão bonito como dizem?

- Conforme os olhos com que se vê. Para mim é detestável.

- Admira. Sabe que sempre tive grande desejo de ver a Europa. Para os filhos da América é uma espécie de sonho, uma ambição, que me parece natural.

- E realizável. Alguns dias de mar somente.

- Já agora é preciso educar meu filho, disse Madalena afagando a cabeça do menino.

- Que idade tem ele?

- Seis anos.

- Está muito desenvolvido.

- Muito.

Madalena proferiu esta palavra sorrindo e contemplando amorosamente o rosto do filho. Quando levantou os olhos deu com os de Luís Pinto, que estavam fitos nela, e logo os desceu, algum tanto comovida. O silêncio que se seguiu foi curto. Levantou-se o oficial para despedir-se.

- Não sei se a verei ainda muitas vezes, disse ele.

- Por quê? perguntou Madalena com interesse.

- O oficial de marinha nada pode afiançar a este respeito. Amanhã mesmo posso embarcar…

- Mas se não embarcar?

- Virei vê-la, se mo permitir.

- Com todo gosto.

Luís Pinto saiu. Madalena ficou algum tempo calada e pensativa, como evocando o passado, que a presença daquele homem lhe fazia despertar. Por fim sacudiu a cabeça, como expelindo de si aquelas memórias tão doces e ao mesmo tempo tão amargas, e beijou com ardor a testa do filho.

Durante uma semana não se avistaram os nossos dois ex-namorados. Ao cabo desse tempo acharam-se ambos em casa do comendador, onde havia reunião. Luís Pinto esperava esse dia para examinar a impressão que teria produzido na viúva aquela ausência um tanto longa para quem tivesse debaixo das cinzas uma faísca do extinto fogo; mas a curiosidade de Madalena era igual à dele e o olhar de ambos foi uma interrogação sem resposta.

Ao oficial pareceu melhor sondar-lhe mais diretamente o coração. Acabada uma valsa, dirigiram-se para uma saleta menos freqüentada.

- Quer descansar um pouco?

- Dois minutos apenas.

Sentaram-se no sofá, que ficava perto de uma janela. Luís Pinto quis fechar a janela.

- Não, disse Madalena, não me faz mal; sento-me aqui deste lado, e gozo ao mesmo tempo a vista da lua, que está deliciosa.

- Deliciosa! respondeu o oficial maquinalmente.

- Mas o senhor parece que preferia dançar…

- Eu?

- Vejo que gosta de dançar.

- Conforme a ocasião.

- Eu gosto, confesso; meu estado não me permite fazer o que eu fazia outrora. Mas danço alguma coisa. Pareço-lhe ridícula, não é?

Luís Pinto protestou contra semelhante idéia. A viúva continuou a falar da dança, da noite e da reunião. De quando em quando caíam os dois em silêncio mais ou menos prolongado, o que deu idéia a Luís Pinto de fazer a seguinte observação entre risonho e sério:

- Calamo-nos às vezes como se fôramos dois namorados.

- É verdade, respondeu Madalena, sorrindo.

- Quem sabe? murmurou o oficial a medo.

A viúva sorriu só, mas não respondeu. Levantou-se; o oficial deu-lhe o braço. Passearam algum tempo, mais tempo do que lhes pareceu a eles, porque a conversa interessava-os realmente, até que ela se retirou para casa. Caminhando, Luís Pinto fez a reflexão seguinte:

- Por que hei de estar com meias palavras? Não é melhor decidir tudo, cortar por uma dificuldade que aliás não existe? Ambos somos livres; tivemos um passado… Sim, é necessário dizer-lhe tudo.

A resolução era mais de assentar que de executar. Luís Pinto tentou três vezes falar francamente no assunto, mas em todas as três vezes não passou do intróito. Não em comoção, era frouxidão. Talvez o coração não ajudasse a língua como convinha. Pela sua parte, a viúva compreendera a intenção do oficial de marinha, mas não lhe estava bem ir-lhe ao encontro. Auxiliá-la, sim; mas também ela sentia a língua frouxa.

Um dia, porém, depois de um jantar em casa de terceiro, Luís Pinto achou uma porta aberta e meteu-se por ela. Achavam-se um pouco separados da outra gente, posto que na mesma sala. Não há nada como um bom jantar para dar animação a um homem, e fazê-lo expansivo, quaisquer que sejam as circunstâncias ou a irresolução própria. Ora, Luís Pinto jantara largamente, apesar de namorado, donde se pode concluir que amar é uma coisa, e comer é outra, e que não sendo a mesma coisa o coração e o estômago, ambos podem funcionar simultaneamente.

Não ouso dizer o estado de Madalena. De ordinário, as heroínas de romance comem pouco ou não comem nada. Ninguém admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. Heloísa, e mais existiu, nunca soube de certo o que era recheio de peru, ou mesmo trouxas d’ovos. Por isso, não afirmo, se Madalena também havia jantado bem; limito-me a dizer que não havia jantado mal.

Estavam os dois como disse a falar de coisas estranhas ao coração quando Luís Pinto arriscou a pergunta seguinte:

- Nunca pensou em casar outra vez?

Madalena estremeceu um pouco.

- Nunca! disse ela daí a alguns instantes.

- Nem casará?

Silêncio.

- Não sei. Tudo depende…

Novo silêncio.

- Depende? repetiu o oficial.

- Depende das circunstâncias.

- Quais serão essas circunstâncias? perguntou Luís Pinto sorrindo.

Madalena sorriu igualmente.

- Ora! disse ela, são as circunstâncias que produzem todos os casamentos.

Luís Pinto calou-se. Minutos depois:

- Lembra-me agora que a senhora podia estar casada.

- Como?

A pergunta pareceu perturbar o moço, que não lhe respondeu logo. A viúva repetiu a pergunta.

- Melhor é não falar do passado, disse ele enfim.

Desta vez foi a viúva que não respondeu. Os dois ficaram calados algum tempo até que ela levantou-se para ir falar à dona da casa. Daqui a vinte minutos acharam-se outra vez ao pé um do outro.

- Não me responde? perguntou ele.

- A quê?

- Ao que lhe disse há pouco.

- Não me fez nenhuma pergunta.

- É verdade mas fiz uma observação. Concorda com ela?

A moça calou-se.

- Já sei que não concorda, observou o oficial de marinha.

- Quem lhe disse isso?

- Ah! concorda?

Madalena fez um gesto de impaciência.

- Não declarei nada, respondeu.

- É verdade, mas concluí.

- Concluiu mal. Não tem nada que concluir, porque nada disse; limitei-me a calar.

Luís pinto ficou um pouco desconsolado.

A moça consolou-o dizendo:

- É sempre mau falar do passado.

- Talvez, murmurou ele.

- Se foi triste, para que recordá-lo? Se foi venturoso, para que amargurar mais a hora presente?

- Sim? mas se for possível reproduzi-lo?

- Reproduzi-lo?

- Sim.

- Como?

- Pergunte a si mesma.

- Já perguntei.

- Ah! exclamou Luís Pinto.

A viúva compreendeu que ele lhe supunha uma preocupação anterior e entendeu que devia dissuadi-lo disso.

- Perguntei agora mesmo…

- E que responde?

- Respondo…

Vieram convidá-la para cantar. Madalena levantou-se, e Luís Pinto deu a todos os diabos o convite e a música.

Felizmente Madalena cantava como um anjo. Luís Pinto ficou encantado com ouvi-la.

Nessa noite, porém, foi-lhe impossível encontrar-se mais a sós com ela, ou porque as circunstâncias o não permitiam, ou porque ela mesma se esquivasse a encontrar-se com ele.

O oficial desesperou.

Teve, porém, uma grande consolação à saída. A viúva, quando se despediu dele, fitou-o calada durante alguns minutos, e disse em tom significativo:

- Talvez!

- Ah!

Luís Pinto foi para casa satisfeito. Aquele talvez era tudo ou quase tudo.

No dia seguinte foi visitar a viúva. A moça recebeu-o com o mais amorável de seus sorrisos.

- Repete-me a palavra de ontem?

- Qual palavra? perguntou Madalena.

Luís Pinto franziu o sobrolho e não respondeu. Nessa ocasião entrou na sala o filho da viúva; esta beijou-o com ternura de mãe.

- Quer que repita a palavra?

- Desejava.

- Pois sim.

- Repete?

- Repito.

- Vamos lá! Pode reproduzir-se o passado?

- Talvez.

- Por que não afirma?

- Nada se pode afirmar.

- Está em nossas mãos.

- O quê?

- Sermos felizes.

- Oh! eu sou muito feliz! disse a viúva beijando o filho.

- Sermos felizes os três.

- Não é feliz?

- Incompletamente.

Daqui a um pedido de casamento só havia um passo; e o conto acabaria aí, se pudesse acabar. Mas o conto não acabou, ou não acabou logo, conforme se verá das poucas linhas que vou ainda escrever.

Luís Pinto não a pediu logo. Havia certeza de que o casamento era o natural desfecho da situação. O oficial de marinha não se achou com ânimo de precipitá-lo. Os dias corriam-lhe agora suaves e felizes; ele ia todos os dias vê-la ou três vezes por semana, pelo menos. Encontravam-se muitas vezes em reuniões e ali conversavam à larga. O singular era que não falavam de si como acontece com os demais namorados. Não falavam também do casamento. Gostavam de falar porque eram ambos amáveis e bons palestradores. Luís Pinto reconheceu isto mesmo, uma noite em que se retirava para casa.

Dois meses haviam corrido depois do último colóquio acima narrado, quando Luís Pinto ouviu ao comendador a pergunta seguinte:

- Então parece que D. Madalena tem fumaças de casar?

- De casar? Não admira; está moça e é bonita.

- Isso é verdade.

- Casar com quem?

- Com o dr. Álvares.

- O dr. Álvares!

Luís Pinto fez aquela exclamação de um modo que o comendador desconfiou alguma coisa a seu respeito.

- Admira-se? perguntou ele.

- Ignorava o que me está dizendo.

O dr. Álvares, de quem se fala agora no fim, e cuja presença não é necessária no caso, era um médico do Norte. Luís Pinto não descobrira, nem a notícia do comendador podia ser tomada ao pé da letra. Não havia projeto de casamento; e aparentemente podia dizer-se que nem namoro havia. Contudo, Luís Pinto procurou observar e nada viu.

- Sabe o que me disseram? perguntou ele daí a duas semanas a Madalena.

- Que foi?

- Disseram-me que ia casar com o dr. Álvares.

A moça não respondeu. O silêncio era constrangido; Luís Pinto desconfiou que a notícia era verdadeira.

Era verdadeira.

Um mês depois daquela conversa, Madalena anunciou às pessoas de suas relações que ia casar com o dr. Álvares.

Luís Pinto devia, não digo morrer, mas ficar abatido e triste. Nem triste, nem abatido. Não ficou coisa nenhuma. Deixou de assistir ao casamento, por um simples escrúpulo; e teve pena, de não ir comer os bolinhos das bodas.

Qual é então a moralidade do conto? A moralidade é que não basta amar muito um dia para amar sempre o mesmo objeto, e que um homem pode fazer sacrifícios por uma fortuna, que mais tarde verá ir-se-lhe das mãos sem mágoas nem ressentimento.

Machado de Assis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias (1876)





Longe dos Olhos…

29 08 2008

I

Na verdade, era pena que uma moça tão prendada de qualidades morais e físicas, como a filha do desembargador, nenhum sentimento inspirasse ao bacharel Aguiar. Mas não a lastime a leitora, porque o bacharel Aguiar nada dizia ao coração de Serafina, apesar dos seus talentos, da rara elegância das suas maneiras, de todos quantos dotes costumam adornar um herói de romance.

E não é romance isto, senão história verídica e real, pelo que, vai esta narrativa com as exíguas proporções de uma notícia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflexões. O caso conto como o caso foi.

Sabido que os dois se não amavam nem pendiam para lá, convém saber mais que o gosto, o plano e não sei se também o interesse dos pais é que eles se amassem e casassem. Os pais punham uma coisa, e Deus dispunha outra. O comendador Aguiar, pai do bacharel, insistia ainda mais no casamento, pelo desejo que tinha de o meter na política, o que lhe parecia fácil desde que o filho se tornasse genro do desembargador, membro ativíssimo de um dos partidos e por agora deputado à Assembléia Geral.

O desembargador pela sua parte achava que lhe não fazia mal nenhum a filha participar da pingue herança que devia receber o filho do comendador, por morte deste.

Pena era que os dois jovens, esperanças de seus pais, derrubassem todos estes planos olhando um para o outro com a máxima indiferença. As famílias visitavam-se freqüentemente, as reuniões e as festas sucediam-se, mas nem Aguiar nem Serafina pareciam dar um passo para o outro. Tão grave caso exigia pronto remédio, e foi o comendador quem tomou a resolução de lho dar sondando o espírito do bacharel.

- João, disse o velho pai certa noite de domingo, depois do chá, achando-se com o filho a sós no gabinete: Acaso nunca pensaste em ser homem político?

- Oh! nunca! respondeu o bacharel espantado com a pergunta. Por que razão pensaria eu na política?

- Pela mesma razão porque outros pensam…

- Mas eu não tenho vocação.

- A vocação faz-se.

João sorriu.

O pai continuou.

- Não te faço esta pergunta à toa. Já houve quem me perguntasse a mesma coisa a teu respeito, eu não tive que responder porque a falar verdade as razões que me davam eram de peso.

- Quais eram?

- Diziam-me que tu andavas em colóquios e conferências com o desembargador.

- Eu? Mas naturalmente converso com ele; é pessoa da nossa amizade.

- Foi o que eu disse. A pessoa pareceu convencer-se da razão que eu lhe dava, e então imaginou outra coisa…

O bacharel arregalou os olhos à espera de ouvir outra coisa, enquanto o comendador acendia um charuto.

- Imaginou então, continuou o comendador puxando uma fumaça, que tu andavas… quero dizer… que pretendias… em suma, um namoro!

- Um namoro!

- É verdade.

- Com o desembargador?

- Velhaco! com a filha.

João Aguiar deu uma gargalhada. O pai pareceu rir também, mas reparando bem não era um riso, era uma careta.

Depois de um silêncio:

- Mas não vejo que houvesse alguma coisa de admirar, disse o comendador; tem-se visto namorar muito rapaz e muita moça. Tu estás na idade do casamento, ela também; nossas famílias visitam-se com freqüência; vocês falam-se com intimidade. Que admira que um estranho supusesse alguma coisa?

- Tem razão; mas não é verdade.

- Pois tanto melhor… ou tanto pior.

- Pior?

- Maganão! disse o velho pai afetando um ar galhofeiro, parece-te que a moça é algum peixe podre? Pela minha parte, entre as moças com que temos relações de família, nenhuma acho que se lhe compare.

- Oh!

- Oh! quê!

- Protesto.

- Protestas? Achas então que ela…

- Acho que é muito formosa e prendada, mas não acho que seja a mais formosa e prendada de todas as que conhecemos…

- Mostra-me alguma…

- Ora, há tantas!

- Mostra-me uma.

- A Cecília por exemplo, a Cecília Rodrigues, para o meu gosto é muito mais bonita que a filha do desembargador.

- Não digas isso; uma lambisgóia!

- Meu pai! disse João Aguiar com um tom de ressentimento que fez pasmar o comendador.

- Que é? perguntou este.

João Aguiar não respondeu. O comendador arrugou a testa e interrogou o rosto mudo do filho. Não leu, mas adivinhou alguma coisa desastrosa; – desastrosa, entenda-se, para os seus cálculos cônjugo-políticos ou político-conjugais, como melhor nome haja.

- Dar-se-á caso que… começou a dizer o comendador.

- Que eu a namore? interrompeu galhofeiramente o filho.

- Não era isso o que te ia perguntar, acudiu o comendador (que aliás não ia perguntar outra coisa), mas visto que tocaste nesse ponto, não era mau que me dissesses…

- A verdade?

- A singela verdade.

- Gosto dela, ela gosta de mim, e aproveito esta ocasião meu pai, para…

- Para nada, João!

O bacharel fez um gesto de espanto.

- Casar, não é? perguntou o comendador. Mas tu não vês a impossibilidade de semelhante coisa? Impossível, não digo que seja; tudo pode acontecer neste mundo, se a natureza o pede. Mas a sociedade tem suas leis que não devemos violar, e segundo elas esse casamento é impossível.

- Impossível!

- Tu levas-lhe em dote os meus bens, a tua carta de bacharel e um princípio de carreira. Que te traz ela? Nem sequer essa beleza que só tu lhe vês. Demais, e isto é o importante, não se dizem boas coisas daquela família.

- Calúnias!

- Pode ser, mas calúnias que correm e se acreditam; e visto que tu não podes fazer na véspera do casamento um manifesto aos povos desmentindo o que se diz e provando que nada é verdade, segue-se que as calúnias triunfarão.

Era a primeira vez que o bacharel conversava com o pai a respeito daquele grave ponto do seu coração. Aturdido com as objeções dele, não achou logo que responder e todo se limitou a interrompê-lo com um ou outro monossílabo. O comendador continuou no mesmo tom e concluiu dizendo que esperava dele não lhe desse um grave desgosto no fim da vida.

- Por que te não levou a fantasia à filha do desembargador ou outra nas mesmas condições? A Cecília, não, nunca será minha nora. Pode casar contigo, é verdade, mas então não serás meu filho.

João Aguiar não achou que responder ao pai. Ainda que achasse, não o poderia fazer porque quando deu acordo de si ele estava longe.

O bacharel foi para o seu quarto.

II

Entrando no quarto, João Aguiar fez alguns gestos de enfado e zanga e de si para si prometeu que, embora não agradasse ao pai, havia de casar com a formosa Cecília, cujo amor era para ele já uma necessidade da vida… O pobre rapaz tão depressa fez este protesto como entrou a ficar frio com a idéia de uma luta, que se lhe afigurava odiosa para ele e para o pai, em todo o caso triste para ambos. As palavras deste relativamente à família da namorada fizeram-lhe grave impressão no espírito; mas ele concluiu, que ainda sendo verdadeira a murmuração, nada tinha com isso a formosa Cecília, cujas qualidades morais estavam acima de todo o elogio.

A noite correu assim nestas e noutras reflexões até que o bacharel dormiu e na manhã seguinte alguma coisa se lhe havia dissipado das apreensões da véspera.

- Tudo se pode vencer, disse ele; o que é preciso é ser constante.

O comendador, porém, tinha dado o passo mais difícil que era falar no assunto ao filho; vencido o natural acanhamento que resultava da situação de ambos, aquele assunto tornou-se assunto obrigado de quase todos os dias. As visitas à casa do desembargador amiudaram-se; amiudaram-se igualmente as deste à casa do comendador. Os dois jovens foram assim metidos à casa um do outro; mas se João Aguiar parecia frio, Serafina parecia gélida. Os dois estimavam-se antes, e ainda se estimavam então; entretanto, a nova situação que lhes haviam criado, estabelecera entre ambos uma certa repulsa que a polidez mal disfarçava.

Porquanto, leitora amiga, o desembargador fizera à filha um discurso igual ao do comendador. As qualidades do bacharel foram postas em relevo com suma habilidade; as razões financeiras do casamento, melhor direi as vantagens dele foram levemente indicadas de maneira a desenhar aos olhos da moça um brilhante futuro de pérolas e carruagens.

Infelizmente (tudo se conspirava contra os dois pais), infelizmente havia no coração de Serafina um obstáculo semelhante ao que João Aguiar tinha no seu, Serafina amava a outro. Não se atreveu a dizê-lo ao pai, mas foi dizê-lo a sua mãe, que não aprovou nem desaprovou a escolha visto que a senhora pensava pela boca do marido, a quem foi transmitida a revelação da filha.

- Isso é uma loucura, exclamou o desembargador; esse rapaz (o escolhido) é bom coração, tem carreira, mas a carreira está no princípio, e demais… creio que é um pouco leviano.

Serafina soube deste juízo do pai e chorou muito; mas nem o pai soube das lágrimas nem que soubesse mudaria de intenção. Um homem grave, quando resolve uma coisa, não deve expor-se ao ridículo, resolvendo outra unicamente levado de algumas lágrimas de mulher. Demais, a tenacidade é prova de caráter; o desembargador era e queria ser homem austero. Conclusão; a moça chorou à toa, e só violando as leis da obediência, poderia realizar os desejos do seu coração.

Que fez então ela? Recorreu ao tempo.

- Quando meu pai vir que eu sou constante, pensou Serafina, há de consentir no que pede o coração.

E dizendo isto, entrou a lembrar-se das amigas a quem acontecera o mesmo e que à força de paciência e tenacidade domaram os pais. O exemplo alentou-a; sua resolução era definitiva.

Outra esperança tinha a filha do desembargador; era que o filho do comendador se casasse, o que não era impossível nem improvável.

Nesse caso, cumpria-lhe ser com João Aguiar extremamente reservada a fim de que ele não viesse a conceber esperanças a seu respeito, o que tornaria muito precária a situação e daria triunfo ao pai. Ignorava a boa moça que João Aguiar fazia a mesma reflexão, e pelo mesmo motivo se mostrava frio com ela.

Um dia, andando as duas famílias na chácara da casa do comendador, em Andaraí, aconteceu encontrarem-se os dois numa alameda, quando justamente não passava ninguém. Ambos mostraram-se incomodados com aquele encontro e de boa vontade teriam recuado; mas não era natural nem bonito.

João Aguiar resolveu cumprimentá-la apenas e ir adiante, como quem levava o pensamento preocupado. Parece que isto foi fingido demais, porque no melhor do papel, João Aguiar tropeça num pedaço de cana que se achava no chão e cai.

A moça deu dois passos para ele, que apressadamente se levantou:

- Machucou-se? perguntou ela.

- Não, D. Serafina, não me machuquei, disse ele, limpando com o lenço os joelhos e as mãos.

- Papai está cansado de ralhar com o feitor; mas é o mesmo que nada.

João Aguiar apanhou o pedaço de cana e atirou-o para uma moita de bambus. Durante esse tempo vinha-se aproximando um moço, visita da casa, e Serafina pareceu um tanto confusa com a presença dele, não porque ele viesse mas por achá-la a conversar com o bacharel. A leitora, que é perspicaz, adivinhou já que é o namorado de Serafina; e João Aguiar, que não é menos perspicaz que a leitora, percebeu a coisa do mesmo modo.

- Ainda bem, disse ele consigo.

E cumprimentando a moça e o rapaz ia seguindo pela alameda fora quando Serafina amavelmente o chamou.

- Não nos acompanha? disse ela.

- Com muito gosto, balbuciou o bacharel.

Serafina fez um sinal ao namorado para que ele se tranqüilizasse, e os três seguiram a conversar de coisas que não interessam à nossa história.

Não; há uma que interessa e não posso omitir.

Tavares, o namorado da filha do desembargador, não compreendeu que ela, chamando o filho do comendador a seguir caminho com eles, tinha por fim evitar que o pai ou a mãe a encontrasse só com o namorado, o que agravaria singularmente a situação. Há namorados a quem é preciso dizer tudo; Tavares era um deles. Inteligente e atilado em todas as outras coisas, era neste particular uma verdadeira toupeira.

Por esse motivo, apenas ouviu o convite da moça, a cara, que já anunciava mau tempo, passou a anunciar temporal desfeito, o que também não escapou ao bacharel.

- Sabe que o Dr. Aguiar levou agora uma queda? disse Serafina olhando para Tavares.

- Ah!

- Não desastrosa, disse o bacharel, isto é, não me fez mal nenhum; mas… ridícula.

- Ah! protestou a moça.

- Uma queda é sempre ridícula, tornou João Aguiar em tom axiomático; e podem já imaginar o que seria do meu futuro, se eu fosse…

- O quê? perguntou Serafina.

- Seu namorado.

- Que idéia! exclamou Serafina.

- Que dúvida pode haver nisso? perguntou Tavares com um sorriso irônico.

Serafina estremeceu e baixou os olhos.

João Aguiar respondeu rindo:

- A coisa era possível, mas deplorável.

Serafina lançou um olhar de repreensão ao seu namorado e voltou-se rindo para o bacharel.

- Não diz isso por desdém, acho eu?

- Oh! por quem é! Digo isto porque…

- Aí vem Cecília! exclamou a irmã mais moça de Serafina, aparecendo no fim da alameda.

Serafina que estava a olhar para o filho do comendador viu-o estremecer e sorriu-se. O bacharel olhou para o lado de onde logo apareceu a dama dos seus pensamentos. A filha do desembargador inclinou-se para o ouvido de Tavares e murmurou:

- Ele diz isto… por causa daquilo.

Aquilo era a Cecília que chegava, não tão formosa quanto queria João Aguiar, nem tão pouco como parecia ao comendador.

Aquele encontro casual na alameda, aquela queda, aquela vinda de Tavares e de Cecília tão a propósito, tudo melhorou a situação e desafogou a alma dos dois jovens destinados por seus pais a um casamento que lhes parecia odioso.

III

De inimigos que deviam ser os dois condenados ao casamento passaram a ser naturalmente aliados. Esta aliança veio devagar, porque, apesar de tudo, ainda se passaram algumas semanas sem que nenhum deles comunicasse ao outro a situação em que se achava.

O bacharel foi o primeiro que falou, e não ficou pouco pasmado ao saber que o desembargador nutria a respeito da filha igual plano ao de seu pai. Haveria acordo dos dois pais? foi a primeira pergunta que ambos fizeram consigo mesmo; mas houvesse ou não, o perigo para eles não diminuía nem aumentava.

- Oh! sem dúvida, dizia João Aguiar, sem dúvida que eu seria muito feliz se os desejos de nossos pais correspondessem aos de nossos corações; mas há um abismo entre nós e a união seria…

- Uma desgraça, concluía afoitamente a moça. Pela minha parte, confio no tempo; confio sobretudo em mim; ninguém leva uma moça à força para a igreja e quando tal coisa se fizesse ninguém lhe podia arrancar dos lábios uma palavra por outra.

- Todavia, nada impede que à liga de nossos pais, disse João Aguiar, opuséssemos nós uma liga… nós quatro.

A moça abanou a cabeça.

- Para quê? disse ela.

- Mas…

- A verdadeira liga é a vontade. Sente-se com força de ceder? Então é que não ama…

- Oh! amo como se pode amar!

- Ah!…

- A senhora é bela; mas Cecília também o é, e o que eu vejo nela não é a beleza, quero dizer as graças físicas, é a alma incomparável que Deus lhe deu!

- Amam-se há muito?

- Há sete meses.

- Admira que ela nunca me dissesse nada.

- Talvez receio…

- De quê?

- De revelar o segredo do seu coração… Bem sei que não há crime nisto, todavia pode ser que por um sentimento de discrição exagerada.

- Tem razão, disse Serafina depois de alguns instantes; também eu nada lhe disse a meu respeito. Demais, entre nós não há grande intimidade.

- Mas deve haver, há de haver, disse o filho do comendador. Vê-se que nasceram para ser amigas; ambas tão igualmente boas e belas. Cecília é um anjo… Se soubesse o que me disse quando eu lhe contei a proposta de meu pai!

- Que disse?

- Estendeu-me a mão apenas; foi tudo quanto me disse; mas esse gesto era tão eloqüente! Eu traduzi-o por uma expressão de confiança.

- Foi mais feliz do que eu?

- Ah!

- Mas não falemos nisto. O essencial é que tanto eu como o senhor tenhamos feito uma boa escolha. O céu há de proteger-nos; estou certa disso.

A conversa continuou assim por este modo singelo e franco. Os dois pais, que ignoravam absolutamente o objeto da conversa deles, imaginavam que a natureza os ajudava no plano do casamento e, longe de impedir, lhes facilitavam as ocasiões.

Graças a este equívoco, os dois podiam repetir essas doces práticas em que cada um ouvia o seu próprio coração e falava do objeto escolhido por ele. Não era um diálogo, eram dois monólogos, algumas vezes interrompidos mas sempre longos e cheios de animação.

Com o tempo vieram eles a fazer-se confidentes mais íntimos; esperanças, arrufos, ciúmes, todas as alternativas de um namoro, comunicados um ao outro; um ao outro se consolavam e se aconselhavam em casos em que eram necessários consolação e conselho.

Um dia o comendador disse ao filho que era conhecido o namoro dele com a filha do desembargador, e que o casamento podia ser feito naquele ano.

João Aguiar caiu das nuvens. Compreendeu, porém, que a aparência enganava ao pai, e o mesmo podia acontecer às pessoas estranhas.

- Mas nada há, meu pai.

- Nada?

- Juro-lhe que…

- Retira-te e lembra-te do que te disse…

- Mas…

O comendador havia já voltado as costas. João Aguiar ficou só a braços com a nova dificuldade. Para ele, a necessidade de uma confidente era já invencível. E onde acharia melhor que a filha do desembargador? Era idêntica a situação de ambos, iguais os interesses; além disso, havia em Serafina uma soma de sensibilidade, uma reflexão, uma prudência, uma confiança, como ele não encontraria em nenhuma outra pessoa. Ainda quando a outra pessoa pudesse dizer-lhe as mesmas coisas que a filha do desembargador, não lhas diria com a mesma graça, e a mesma doçura; um não sei o que o levava a lastimar não poder fazê-la feliz.

- Meu pai, tem razão, dizia ele às vezes consigo; se eu não amasse a outra, devia amar a esta, que é certamente comparável a Cecília. Mas é impossível; meu coração está preso a outros laços…

A situação, entretanto, complicava-se, toda a família de João Aguiar dizia-lhe que a sua verdadeira e melhor noiva era a filha do desembargador. Para acabar com todas essas insinuações, e seguir os impulsos do seu coração, teve o bacharel idéia de raptar Cecília, idéia extravagante e só filha do desespero, visto que o pai e a mãe da namorada nenhum obstáculo punham ao casamento deles. Ele mesmo reconheceu que o recurso era um despropósito. Ainda assim disse-o a Serafina, que amigavelmente o repreendeu:

- Que idéia foi essa! exclamou a moça, além de desnecessário, não era… não era decorosa. Olhe, se fizesse isso nunca mais devia falar-me…

- Não me perdoaria?

- Nunca!

- Entretanto, a minha posição é dura e triste.

- Não o é menos a minha.

- Ser amado, poder ser feliz tranqüilamente feliz para todos os dias da minha vida…

- Oh! isso!

- Não crê?

- Quisera crer. Mas está-me a parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai à medida dos nossos desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.

- Adivinho, disse João Aguiar.

- Adivinha o quê?

- Algum arrufo.

- Oh! não! nunca estivemos melhor; nunca andamos mais tranqüilos do que agora.

- Mas…

- Mas não permite que às vezes a dúvida entre no coração? Não é ele do mesmo barro que os outros?

João Aguiar refletiu alguns instantes.

- Talvez tenha razão, disse ele enfim, a realidade não será sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo é uma harmonia na vida, é uma grande perfeição do homem. Se víssemos logo a realidade como ela há de ser quem daria um passo para ser feliz?…

- Isso é verdade! exclamou a moça e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admirável cabeça e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados.

A leitora há de desconfiar muita coisa às teorias dos dois confidentes relativamente à felicidade. Pela minha parte, posso afiançar que João Aguiar não pensava uma só palavra que disse; não o pensava antes, quero eu dizer; ela porém tinha o secreto poder de lhe influir as suas idéias e sentimentos. Não poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada podia dispensar a vara de condão; bastava falar.

IV

Um dia, Serafina recebeu uma carta de Tavares dizendo-lhe que não voltaria mais à casa de seu pai, por este lhe haver mostrado má cara nas últimas vezes que ele lá estivera.

Má cara é exageração de Tavares, cuja desconfiança era extrema e às vezes pueril; é certo que o desembargador não gostava dele, depois que soube das intenções com que ali ia, e é possível, é até certo que o seu modo afetuoso para com ele sofreu alguma diminuição. A fantasia de Tavares é que fez daquilo má cara.

Eu aposto que o leitor, em caso igual, redobrava de atenções com o pai, a ver se lhe reconquistava as boas graças, e entretanto ia gozando a fortuna de ver e contemplar a dona dos seus pensamentos. Tavares não fez assim; tratou logo de romper as suas relações.

Serafina sentiu sinceramente esta resolução do namorado. Escreveu-lhe dizendo que refletisse bem e voltasse atrás. Mas o namorado era homem teimoso; meteu os pés à parede, e não voltou.

Jurar-lhe amor isso fez ele, e não deixava de lhe escrever todos os dias, cartas muito longas, muito repassadas de sentimento e de esperanças.

João Aguiar soube do que se passara e procurou por sua vez dissuadi-lo da funesta resolução.

Tudo foi baldado.

- A desconfiança é o único defeito dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas é grande.

- É um defeito bom e mau, observou João Aguiar.

- Não é sempre mau.

- Mas como não há criatura perfeita, é justo relevar-lhe esse único defeito.

- Oh! de certo; contudo…

- Contudo?

- Preferia que o defeito fosse outro.

- Outro qual?

- Outro qualquer. A desconfiança é uma triste companheira; arreda toda a felicidade.

- Eu a esse respeito, não tenho motivo de queixa… Cecília tem a virtude oposta num grau que me parece excessivo. Há nela um quê de simplória…

- Oh!

Aquele oh de Serafina foi como que um protesto e repreensão, mas acompanhado de um sorriso, não digo aprovador, mas benévolo. Defendia a moça ausente, mas talvez achasse que João Aguiar tinha razão.

Dois dias depois adoeceu levemente o bacharel. A família do desembargador foi visitá-lo. Serafina escrevia-lhe todos os dias. Cecília, é inútil dizê-lo, escrevia-lhe também. Mas havia uma diferença: Serafina escrevia melhor; havia mais sensibilidade na sua linguagem. Pelo menos, as cartas dela foram relidas mais vezes que as de Cecília.

Quando ele se levantou da cama, estava bom fisicamente, mas recebeu um golpe na alma. Cecília ia para a roça durante dois meses; eram manias do pai.

O comendador estimou este incidente, supondo que de uma vez para sempre o filho a esqueceria. O bacharel, entretanto, sentiu muito a separação.

A separação efetuou-se dai a cinco dias. Cecília e João Aguiar escreveram um ao outro grandes protestos de amor.

- Dois meses! dizia o bacharel da última vez que lhe falara. Dois meses é a eternidade…

- Sim, mas havendo constância…

- Oh! essa!

- Essa havemos de tê-la ambos. Não te esqueças de mim, sim?

- Juro.

- Falarás de mim muitas vezes com Serafina?

- Todos os dias.

Cecília partiu.

- Está muito triste? disse a filha do desembargador logo que nessa mesma tarde falou ao bacharel.

- Naturalmente.

- São apenas dois meses.

- Fáceis de suportar.

- Fáceis?

- Sim, conversando com a senhora, que sabe tudo, e fala destas coisas de coração como senhora de espírito que é.

- Sou um eco das suas palavras.

- Quem dera que assim fosse! Eu poderia então ter vaidade de mim.

João Aguiar disse estas palavras sem tirar os olhos da mão de Serafina, que mui graciosamente brincava com os cabelos.

A mão de Serafina era realmente uma bela mão; nunca, porém, lhe pareceu mais bela do que naquele dia, nem ela a movera nunca com tamanha graça.

Nessa noite João Aguiar sonhou com a mão da filha de desembargador. Que lhe havia de pintar a fantasia? Imaginou estar no alto das nuvens, a olhar pasmado o céu azul, de onde viu repentinamente sair uma mão alva e delicada, a mão de Serafina, que se estendia para ele, que lhe acenava, que o chamava para o céu.

Riu-se João Aguiar deste singular sonho e foi contá-lo no dia seguinte à proprietária da mão. Também ela riu do sonho; mas tanto ele como ela pareciam estar convencidos lá no seu interior que a mão era efetivamente angélica e era natural vê-la em sonhos.

Quando ele se despediu:

- Não vá sonhar outra vez com ela, disse a moça estendendo a mão ao bacharel.

- Não desejo outra coisa.

Não sonhou outra vez com a mão, mas pensou muito nela e dormiu tarde. No dia seguinte para se castigar desta preocupação, escreveu uma longa carta a Cecília falando muito de seu amor e dos projetos de futuro.

Cecília recebeu a carta cheia de contentamento, porque muito tempo havia já que ele não escrevia carta tão longa. A resposta dela foi ainda mais comprida.

Um período da carta convém ser transcrito aqui:

Dizia assim:

Se eu fosse ciumenta… se eu fosse desconfiada… havia de te dizer agora muito duras coisas. Mas não digo, descansa; amo-te e sei que me amas. Mas por que havia eu de dizer duras coisas? Porque nada menos de catorze vezes falas no nome de Serafina. Catorze vezes! Mas são catorze vezes em catorze páginas, que são todas minhas.

João Aguiar não se lembrava de haver escrito tanta vez o nome da filha do desembargador; lembrava-se, porém, de haver pensado muito nela enquanto escrevia a carta. Felizmente nada mau resultara, e o jovem namorado achou que ela tinha razão na queixa.

Nem por isso deixou de mostrar o trecho acusador à namorada do Tavares, que sorriu e agradeceu a confiança. Mas foi um agradecimento com a voz trêmula e um sorriso de íntima satisfação.

Parece que as catorze páginas deviam servir para longo tempo, porque a seguinte carta foi apenas de duas e meia.

A moça queixou-se, mas com brandura, e concluiu pedindo-lhe que fosse vê-la à roça, ao menos por dois dias, visto que o pai resolvera lá ficar mais quatro meses, além do prazo marcado para a volta.

Era difícil ao filho do comendador ir lá ter sem oposição do pai. Imaginou porém um meio bom; inventou um cliente e um processo, ambos os quais o digno comendador engoliu, cheio de satisfação.

João Aguiar partiu para a roça.

Ia por dois dias apenas; os dois dias correm nas delícias que o leitor pode imaginar, mas com uma sombra, uma coisa inexplicável. João Aguiar, ou porque aborrecesse a roça ou porque amasse demais a cidade, sentia-se um pouco tolhido ou não sei que seja. No fim de dois dias desejava ver-se outra vez no bulício da corte. Felizmente, Cecília procurava compensar-lhe os tédios do lugar, mas parece que era excessiva nas mostras de amor que lhe dava, pois o digno bacharel dava sinais de impaciência.

- Serafina tem mais comedimento, dizia ele.

No quarto dia escreveu uma carta à filha do desembargador, que lhe respondeu com outra, e se eu disser à leitora que tanto um como outro beijaram as cartas recebidas, a leitora verá que a história se aproxima do fim e que a catástrofe está próxima.

Catástrofe, na verdade, e terrível foi a descoberta que tanto o bacharel como a filha do desembargador fizeram de que se amavam e já de longos dias. Foi principalmente a ausência que lhes confirmou a descoberta. Os dois confidentes aceitaram esta novidade um pouco perplexos, mas muito contentes.

A alegria era travada de remorso. Havia dois embaçados, a quem eles fizeram grandes protestos e juramentos repetidos.

João Aguiar não resistiu ao novo impulso do coração. A imagem da moça, sempre presente, fazia-lhe tudo cor-de-rosa.

Serafina, porém, resistiu; a dor que ia causar no ânimo de Tavares deu-lhe forças para calar o seu próprio coração.

Em conseqüência disto, começou a evitar toda a ocasião de encontro com o jovem bacharel. Isto e lançar lenha ao fogo era a mesma coisa. João Aguiar sentiu um obstáculo com que não contava, o amor cresceu-lhe e apoderou-se dele.

Não contava com o tempo e o coração da moça.

A resistência de Serafina durou o que duram as resistências de quem ama. Serafina amava; no fim de quinze dias abateu as armas. Tavares e Cecília estavam vencidos.

Eu desisto de dizer ao leitor o abalo produzido naquelas duas almas pela ingratidão e perfídia dos dois felizes namorados. Tavares enfureceu-se e Cecília definhou longo tempo; afinal Cecília casou e Tavares está diretor de companhia.

Não há dor eterna.

- Bem dizia eu! exclamou o comendador quando o filho lhe impetrou licença para ir pedir a mão de Serafina. Bem dizia eu que vocês deviam casar! Custou muito!

- Alguma coisa.

- Mas agora?

- Definitivo.

Casaram-se há alguns anos aqueles dois confidentes. Recusaram fazer à força aquilo que o coração lhes indicou depois.

Há de ser duradouro o casamento.

Machado de Assis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias (1876)