A Infelicidade do Celibatário

9 06 2008

Parece tão ruim permanecer solteiro e já velho pedir acolhida – mantendo com dificuldade a própria dignidade – quando se quer passar uma noite em companhia das pessoas, estar doente e do canto da sua cama fitar semanas a fio o quarto vazio, despedir-se sempre na porta do prédio, nunca abrir caminho para o alto da escada ao lado da esposa, ter no quarto apenas portas laterais que dão para apartamentos de estranhos, trazer numa das mãos o jantar para casa, ter de admirar os filhos alheios e não poder continuar repetindo “não tenho nenhum”, tomar por modelo, no aspecto físico e no comportamento, um ou dois celibatários das lembranças de juventude.

Assim vai ser, só que na realidade, hoje como mais tarde, ali estará o mesmo de sempre, com um corpo e uma cabeça real – ou seja, com uma testa também – para bater nela com a mão.

Franz Kafka
Extraído do site Alguns Textos


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